Irã desafia ultimato de Trump e prazo se aproxima sem acordo
Presidente americano ameaçou destruir "toda uma civilização" caso Teerã não reabra o Estreito de Ormuz até as 20h de terça-feira; ataques se intensificam e mercados globais operam paralisados
O Irã não deu nenhum sinal de aceitar o ultimato de Donald Trump para reabrir o Estreito de Ormuz até o fim desta terça-feira, enquanto o presidente americano ameaçou que “toda uma civilização morrerá esta noite” caso Teerã não chegue a um acordo de última hora.
Trump deu ao Irã até as 20h em Washington — 3h30 em Teerã — para encerrar o bloqueio ao petróleo do Golfo, sob pena de destruir todas as pontes e usinas elétricas iranianas. O Irã, por sua vez, afirmou que retaliaria contra aliados dos EUA no Golfo, cujas cidades no deserto se tornariam inabitáveis sem energia elétrica ou água.
Com o prazo se esgotando, os ataques ao Irã se intensificaram ao longo do dia, atingindo pontes ferroviárias e rodoviárias, um aeroporto e uma planta petroquímica. As forças americanas atacaram alvos na Ilha de Kharg, onde fica o principal terminal de exportação de petróleo iraniano — território que Trump já chegou a cogitar publicamente tomar para si.
O Irã respondeu declarando que não conteria mais seus ataques à infraestrutura dos países vizinhos do Golfo, e afirmou ter realizado novos ataques contra um navio no Golfo e um grande complexo petroquímico saudita.
AS AMEAÇAS DE TRUMP ATINGEM NOVO NÍVEL
“Toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais ser reconstruída. Não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”, escreveu Trump em sua rede social Truth Social.
“No entanto, agora que temos uma Mudança de Regime Completa e Total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer. QUEM SABE? Saberemos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do Mundo.”
Brian Finucane, ex-assessor jurídico do Departamento de Estado americano e hoje integrante do International Crisis Group, afirmou que as declarações de Trump “poderiam plausivelmente ser interpretadas como uma ameaça de cometer genocídio” à luz da legislação americana e do direito internacional.
Com apenas algumas horas restantes antes do prazo, uma fonte iraniana de alto escalão afirmou que Teerã mantinha sua recusa em reabrir o estreito sem concessões americanas que, até o momento, não haviam sido feitas.
O Paquistão, que tem atuado como principal mediador, continuava transmitindo mensagens entre as partes, mas Washington não havia alterado seu tom, disse a fonte. Caso os EUA cumprissem a ameaça de atacar a rede elétrica iraniana, Teerã mergulharia os países do Golfo — incluindo a Arábia Saudita — na escuridão, acrescentou a fonte, informando que essa ameaça havia sido transmitida a Washington por meio do Catar.
Mais cedo, outra fonte iraniana de alto nível disse à Reuters que Teerã havia rejeitado uma proposta de cessar-fogo temporário transmitida por intermediários.
Negociações por uma paz duradoura só poderiam ter início após o fim dos bombardeios por parte dos EUA e de Israel, com garantias de que não recomeçariam, além de compensação pelos danos causados, disse a fonte iraniana, acrescentando que qualquer acordo deve manter o Irã no controle do estreito, com cobrança de taxas pelo trânsito de embarcações.
Apesar da intensificação dos ataques e da retórica de ambos os lados, os mercados globais operavam em grande parte paralisados, sem disposição para apostar se Trump cumpriria suas ameaças ou as cancelaria, como já fez anteriormente.
Entre os ataques relatados dentro do Irã estavam ações contra pontes ferroviárias, uma ponte de rodovia, uma planta petroquímica e um aeroporto. O fornecimento de energia foi interrompido em partes de Karaj, a oeste de Teerã, após um ataque a linhas de transmissão e uma subestação elétrica. Israel alertou os iranianos, em uma publicação nas redes sociais em persa, que qualquer pessoa nas proximidades de ferrovias estaria em perigo.
Uma sinagoga em Teerã foi destruída durante a noite em ataques que o Irã atribuiu a Israel. Imagens veiculadas pela mídia iraniana mostraram textos em hebraico espalhados entre os escombros.
“O prédio da sinagoga foi completamente destruído e nossos rolos da Torá ficaram sob os destroços”, disse Homayoun Sameh, parlamentar representante da comunidade judaica do Irã — uma das maiores do Oriente Médio fora de Israel. O Exército israelense não fez comentários imediatos.
PAQUISTÃO TENTA MEDIAR TRÉGUA
O Irã respondeu a um ataque noturno a um grande complexo petroquímico com um ataque ao gigantesco polo de indústria petrolífera downstream da Arábia Saudita em Jubail, onde empresas ocidentais operam empreendimentos de bilhões de dólares. Vídeo verificado pela Reuters mostrou fumaça e chamas se erguendo do local.
Os Guardiões da Revolução Islâmica afirmaram em comunicado que Teerã “privaria os Estados Unidos e seus aliados na região de petróleo e gás por anos”.
“Até hoje demonstramos grande contenção em nome da boa vizinhança e tivemos alguma consideração na escolha dos alvos de retaliação”, disse o comunicado. “Mas todas essas restrições foram removidas desde então.”
Iranianos esperavam que a escalada ameaçada pudesse ser evitada.
“Espero que seja mais uma blefe de Trump”, disse Shima, 37 anos, da cidade central de Isfahan, em entrevista à Reuters por telefone.
Trump cancelou abruptamente ameaças semelhantes nas últimas semanas, citando o que descreveu como negociações produtivas com figuras do Irã que nunca identificou. Teerã negou que tais conversas substantivas tenham ocorrido.
O embaixador iraniano no Paquistão afirmou que os “esforços positivos e produtivos” de Islamabad para mediar o fim da guerra estavam “se aproximando de uma etapa crítica e sensível”.
Uma proposta transmitida pelo Paquistão previa um cessar-fogo temporário e o levantamento do bloqueio efetivo do estreito pelo Irã, adiando um acordo de paz mais amplo para negociações futuras, de acordo com uma fonte familiarizada com o plano.
Mas a resposta iraniana de 10 pontos, conforme relatado pela agência de notícias IRNA na segunda-feira, exigiria um fim permanente da guerra, o levantamento das sanções e uma promessa de reconstrução dos locais iranianos danificados pelos ataques israelenses-americanos.
A resposta também incluiria um novo mecanismo para reger a passagem pelo estreito — anteriormente uma via marítima internacional aberta por onde transitava habitualmente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. Desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, o país fechou efetivamente o estreito para a maioria dos navios, exceto os próprios.
Trump reiterou seu prazo em uma mensagem nas redes sociais no domingo, declarando: “Abram a p*** do Estreito, seus malucos, ou vocês vão viver no Inferno — FIQUEM DE OLHO!”, linguagem que autoridades iranianas descreveram como desesperada ou até mesmo insana.