Terça-feira, 1 de setembro de 2026
o CONTRADITÓRIO Buscar
GARANHUNS AGRESTE PERNAMBUCO BRASIL MUNDO ECONOMIA ESPORTES CULTURA CURIOSIDADES
Publicidade
espaço publicitário · 970×90

Disseram que o hospital de Garanhuns desviou quase R$ 1 milhão. Fizemos a conta que ninguém fez

A denúncia rodou o Brasil em um dia. Fomos ler os documentos, refazer as contas e checar as datas. O resultado é bem diferente do que foi ao ar.

Disseram que o hospital de Garanhuns desviou quase R$ 1 milhão. Fizemos a conta que ninguém fez
O deputado Rodrigo Farias, autor do pedido de fiscalizacao, a direita, ao lado de Joao Campos na convencao de 1o de agosto. Foto: reproducao/Instagram @rodrigo.farias40

No dia 13 de agosto, o Jornal da Record parou a edição para dizer que um hospital do interior de Pernambuco tinha desviado quase R$ 1 milhão do SUS. No mesmo dia, o site Metrópoles publicou a mesma coisa. A notícia correu o Brasil em poucas horas.

O hospital é daqui. É o Perpétuo Socorro, na Simoa Gomes, onde cerca de 800 pessoas da nossa região fazem hemodiálise e tratam câncer.

A notícia deu o número. E parou aí.

Não disse quem pediu a investigação.

Não disse que aquele valor é 1,62% do que foi examinado.

Não disse que, dentro desse 1,62%, quase tudo — 99,1% — é papel faltando em prontuário, e não procedimento que deixou de ser feito. O que sobra depois disso são R$ 7.983,95.

Não disse que ninguém leu o relatório, porque ele continua trancado até hoje.

E não disse a data em que tudo isso caiu no colo do país: onze dias depois de as chapas irem para a rua, numa campanha em que o candidato da oposição vem despencando nas pesquisas há um ano.

Fomos atrás de cada uma dessas respostas. Uma por uma.

O que os documentos mostram não é que a denúncia seja mentira. É que ela chegou ao país pela metade — e a metade que ficou de fora muda o tamanho da história.

Em resumo

O valor apontado é 1,62% do que a fiscalização examinou. Dentro desse pedaço, 99,1% é papelada incompleta — falta de assinatura e de registro em prontuário. O que sobra, e que não é papelada, são R$ 7.983,95. O relatório não é público: ninguém de fora leu. Quem pediu a investigação foi um deputado da oposição, e ela virou manchete nacional onze dias depois de as chapas irem para a rua. Em nove listas oficiais de punição e em 56 anos de funcionamento, o hospital não tem uma única condenação. E, nos dois processos em que ele aparece contra o Estado, é ele quem cobra — e ganhou os dois.

Agora, com calma, cada um desses pontos.

Quem pediu

Investigação do Ministério da Saúde não cai do céu. Alguém pede.

E, neste caso, Brasília não foi a primeira porta.

Antes dela, a acusação foi levada ao Tribunal de Contas do Estado, em 2024. O tribunal abriu uma auditoria especial para examinar a contratação de leitos de UTI e foi ver, entre outras coisas, a alegação central de toda essa história: a de que haveria favorecimento por causa do parentesco.

A equipe técnica do Tribunal não encontrou impedimento nem nepotismo. Registrou que o credenciamento ficou aberto a vários prestadores. Os problemas que apontou são administrativos e recaem, na maior parte, sobre a própria Secretaria de Saúde — preço de diária fixado com base em documento desatualizado, edital sem indicação da origem do dinheiro, falta de publicidade.

Nenhum deles é desvio de dinheiro público. E, num dos pontos, a equipe registrou o contrário do que se dizia: encontrou documentos mostrando que o serviço tinha sido prestado, sem apontar má-fé de ninguém.

Não deu no que se queria.

Um ano depois, veio a segunda tentativa — dessa vez no governo federal.

Quem pediu a investigação federal foi Rodrigo Farias, deputado estadual do PSB, vice-presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Foi em outubro de 2025, quase um ano antes de a notícia estourar.

Da tribuna, ele disse que era “um caso clássico de superfaturamento, dano ao erário, conflito de interesses, enriquecimento ilícito e clara afronta aos princípios da impessoalidade”.

Guarde essas palavras.

Elas são do deputado. Não estão no relatório. Não estão em decisão de juiz nenhum. Quando a manchete nacional saiu, dez meses depois, o vocabulário de quem denunciou já tinha virado a moldura da notícia.

Assinaram junto Sileno Guedes (PSB), presidente da Comissão de Saúde da Assembleia, Junior Matuto (PRD) e Romero Albuquerque (União).

O PSB é o partido de João Campos, adversário de Raquel Lyra na eleição deste ano. O hospital é do marido da vice-governadora dela.

O deputado Sileno Guedes fala ao microfone ao lado de João Campos em evento de 19 de julho de 2026
Sileno Guedes, presidente da Comissão de Saúde da Assembleia e um dos que assinaram o pedido de fiscalização, ao microfone ao lado de João Campos, em 19 de julho. Foto: reprodução/Instagram @manoel.saraiva

Isso não torna a denúncia falsa. Denúncia de adversário também pode ser verdadeira — e é obrigação do jornal conferir, não descartar. Mas quem lê tem o direito de saber de onde ela veio. Nenhuma das reportagens nacionais contou isso.

O calendário

Agora olhe só as datas.

Março de 2026. No meio da investigação, Álvaro Porto, presidente da Assembleia — a Casa que pediu a fiscalização —, sai do PSDB e entra no MDB. O motivo é declarado pelo gabinete dele: entrar no “projeto político coletivo liderado pelo prefeito João Campos”. Assina a ficha em Brasília, ao lado de Campos.

25 de julho. O MDB oficializa apoio a João Campos.

1º de agosto. Na festa que lança Campos candidato ao governo, Álvaro Porto pega o microfone e diz: “Peço desculpas por ter pedido voto para a pior governadora da história.”

O presidente da Assembleia que encomendou a fiscalização estava no palanque do adversário da governadora, doze dias antes de o relatório virar manchete.

2 de agosto. Raquel Lyra é confirmada candidata à reeleição, com Priscila Krause outra vez como vice.

Raquel Lyra e Priscila Krause na convenção do PSD
Raquel Lyra e Priscila Krause na convenção do dia 2. Onze dias depois, o caso do hospital do marido da vice estava em rede nacional. Foto: reprodução/Instagram @priscilakrauseoficial

12 de agosto. O relatório fica pronto.

13 de agosto. Vira manchete no Brasil inteiro.

Doze dias entre o palanque e a bomba. Onze entre a chapa e a bomba.

Nenhuma dessas datas é opinião nossa. Todas estão em registro público. Qualquer pessoa pode conferir.

Falta uma. As matérias do próprio site da Assembleia sobre este caso saíram do ar. Quem procura hoje encontra um aviso: o conteúdo “foi ocultado em respeito à legislação eleitoral e voltará a ser exibido ao término das eleições de 2026”.

A Casa que encomendou a investigação admite, por escrito, que o assunto pesa na campanha.

A briga que está por trás

Para entender por que uma fiscalização em Garanhuns virou plantão nacional, é preciso olhar o tabuleiro.

Pernambuco vive a eleição mais apertada em muitos anos. E ela virou, segundo a própria BBC, uma “guerra digital”.

Há um ano, a disputa parecia resolvida. Em agosto de 2025, o instituto Quaest media João Campos com 55% e Raquel Lyra com 24%. Trinta e um pontos de diferença. Quase o dobro.

Aí a curva entortou.

Em abril deste ano, Campos já estava em 42%. Na pesquisa Quaest de julho — feita entre os dias 22 e 26, com 900 eleitores ouvidos —, os números são estes: Raquel Lyra 43%, João Campos 37%.

Em um ano, Campos perdeu 18 pontos. Raquel ganhou 19.

O Datafolha de 28 a 30 de julho, com 1.022 entrevistas, mostra o mesmo movimento em outra escala: Raquel com 48%, Campos com 42%.

Quem estava trinta pontos à frente está atrás.

E foi nesse cenário que a campanha da governadora foi à Justiça.

Em 31 de julho — treze dias antes de o relatório do hospital virar manchete —, a campanha de Raquel Lyra protocolou no Tribunal Regional Eleitoral e na Procuradoria Regional Eleitoral um conjunto de documentos que aponta disparo de notícias falsas, perfis falsos e uso de robôs em ataques coordenados.

Foram 535 perfis mapeados. Segundo a campanha, em quase 100% deles a atuação era contra a governadora e favorável a João Campos. Cerca de 90% desses perfis já foram removidos pelas próprias plataformas.

Os indícios de automação descritos no pedido são os do manual: o mesmo texto replicado palavra por palavra em contas diferentes, contas descartáveis criadas para o disparo, e restos visíveis de conteúdo gerado por máquina.

E não é só alegação de campanha. Em agosto, o próprio Tribunal Regional Eleitoral mandou tirar do ar uma publicação feita com inteligência artificial que associava Raquel Lyra a Flávio Bolsonaro.

O PSB rebate. O partido diz que, “antes de tentar assumir o papel de vítima, o grupo da governadora precisa esclarecer as investigações que já alcançam sua própria estrutura”, e cita uma apuração da Polícia Federal sobre ataques coordenados que, segundo o partido, teriam ligação com o governo estadual.

Ou seja: os dois lados se acusam de fabricar realidade. É esse o ambiente.

E é dentro desse ambiente que uma fiscalização entre quatrocentas, pedida por um deputado da oposição, concluída no dia 12, atravessa o país no dia 13 — sem o documento, sem o percentual, sem quem pediu.

A conta que ninguém mostrou

Quem fez a fiscalização foi o Denasus, o setor do Ministério da Saúde que confere se o dinheiro do SUS foi bem gasto. É o auditor da União para a saúde pública.

Esse setor olhou R$ 55,89 milhões que o hospital recebeu entre janeiro de 2023 e julho de 2025.

Dentro desse valor todo, apontou problema em R$ 905.233,95.

Faça a divisão. Dá 1,62%.

Em dinheiro de padaria: de cada R$ 100 que o fiscal olhou, ele questionou R$ 1,62. Os outros R$ 98,38 passaram.

Agora o segundo número. E preste atenção nele, porque é o que derruba a manchete.

Aqueles R$ 905.233,95 não são um bolo de coisas diferentes. Dentro deles, R$ 897.250 — ou 99,1% — são atendimentos “sem comprovação adequada em prontuário”.

Prontuário é o caderno de bordo do paciente. Quem atendeu, o que fez, a que horas, com assinatura. Se falta a assinatura do enfermeiro numa sessão de hemodiálise, aquela sessão pode ter acontecido com o paciente na cadeira, o soro correndo, a máquina ligada. Só que, no papel, ela não está provada.

Papel faltando não é paciente faltando.

Agora junte as duas contas, porque é aqui que a história inteira se resolve.

Os 99,1% não são de outro bolo. São dentro daquele 1,62%.

Ou seja: dos R$ 55,89 milhões que o fiscal examinou, R$ 897.250 são falha de papelada — 1,6% do total.

E o que sobra? O que não é papelada, o que poderia ser qualquer outra coisa?

R$ 7.983,95.

Menos de oito mil reais. 0,0143% de tudo que foi examinado. Um real em cada sete mil.

É esse o tamanho do “quase R$ 1 milhão desviado” que rodou o Brasil.

Foi isso que o hospital respondeu, em nota: “a ausência pontual de uma assinatura ou de determinado registro em um documento específico não significa, necessariamente, que o atendimento não tenha sido realizado.”

A palavra “forjou”, que apareceu em manchete, não está em nenhum trecho conhecido do relatório. E ninguém pode conferir: o documento não é público.

Tem mais um detalhe que a cobertura nacional não contou. Depois de apresentar papéis, o hospital teve 15 sessões localizadas e aceitas pela própria fiscalização. Parte do que virou notícia era documento que não estava na mesa naquele dia.

E há uma questão que pode mudar completamente a natureza do que foi apontado na oncologia.

Em vídeo publicado no dia 14, o ex-secretário estadual Daniel Coelho — do PSD, mesmo partido da governadora, e hoje candidato a deputado federal — afirmou que parte das divergências apontadas se refere a escolha de protocolo de quimioterapia: o relatório teria questionado o fato de um tratamento ter sido feito com um medicamento em vez de outro.

“Essa decisão não cabe a técnico de ministério, nem muito menos ao hospital”, disse ele. “Essas são decisões médicas, isso é o ato médico que precisa ser preservado. E as decisões foram feitas para poder salvar vidas, como os próprios médicos que indicaram os protocolos afirmam.”

Se isso se confirmar, a acusação muda de figura. Deixa de ser cobrança por procedimento que não aconteceu e passa a ser um auditor administrativo, em Brasília, revendo a escolha de um médico oncologista que estava diante do paciente.

Enquanto o relatório não for aberto, ninguém pode conferir — nem nós. É mais um motivo para ele ser público.

Chamaram a imprensa antes de a investigação começar

Volte a fevereiro deste ano. Os fiscais chegando a Garanhuns, primeiro dia de trabalho, nenhuma conta aberta ainda, nenhum papel conferido.

E a imprensa avisada. Para o começo.

Leia de novo, porque é aqui que a coisa fica estranha.

Não chamaram os jornalistas quando o relatório ficou pronto. Chamaram no dia em que os fiscais entraram pela porta — quando ainda não existia achado nenhum, conclusão nenhuma, número nenhum.

O normal é o contrário: fiscaliza-se primeiro, divulga-se o resultado depois. É assim porque uma fiscalização anunciada com câmera na porta já produz manchete antes de existir prova. E manchete não se desfaz.

O hospital estranhou em público, na época. A estranheza ficou registrada — e virou a primeira pergunta desta reportagem.

Quem convocou os jornalistas, e por qual canal, ninguém explicou até hoje. O que o Ministério da Saúde disse, lá em fevereiro, foi outra coisa: que a investigação “responde a denúncia externa” e que ele faz cerca de 400 fiscalizações por ano.

Publicidade
espaço publicitário · 300×250

Quatrocentas por ano. Mais de uma por dia útil.

Essa é a única que virou plantão de telejornal nacional.

Quem está cobrando quem

Aqui a história vira do avesso.

O hospital aparece em dois processos contra o Estado de Pernambuco. Nos dois, ele não é o réu. Ele é quem cobra. E ganhou os dois.

No primeiro, foi à Justiça atrás de uma dívida que o Estado não pagava: R$ 243.625,41, vencidos em 20 de maio de 2019. Entrou com o processo em 2022. Ganhou. O Estado recorreu. Só em dezembro de 2025 a decisão ficou definitiva. Em agosto deste ano, o hospital ainda estava cobrando o dinheiro na Justiça.

Sete anos para receber o que era dele.

No segundo, o Estado cobrava imposto a mais na conta de luz do hospital. A Justiça mandou devolver tudo desde 2017. O Estado recorreu. Perdeu de novo, em junho.

Pare um segundo nisso, porque é o ponto que a acusação não consegue explicar.

Priscila Krause é vice-governadora desde janeiro de 2023. O hospital é do marido dela. Ela chegou a assumir o governo em exercício mais de uma vez nesse período.

E o que o Estado fez, nesses anos todos? Continuou brigando na Justiça contra o hospital do marido dela. Contestou. Perdeu. Recorreu. Perdeu de novo.

Agora faça a conta do tamanho disso.

A dívida que o Estado não pagou é de R$ 243 mil. É menos de meio por cento de tudo que passou pela unidade no período investigado. É troco, perto do resto.

Se existisse um esquema montado para favorecer o hospital do marido da vice, esse valor seria resolvido com uma canetada, num despacho de dez segundos. Ninguém monta esquema para desviar milhões e deixa R$ 243 mil de dívida legítima apodrecendo sete anos no Judiciário — obrigando o suposto beneficiado a contratar advogado, entrar com processo e esperar sentença para receber o que já era dele.

O aparelho do Estado tratou esse hospital como trata qualquer um. Isso não é opinião: está nos autos, com número de processo e data.

“Os repasses cresceram 42%”

Foi o que a oposição disse sobre o primeiro ano do governo Raquel Lyra.

O Estado publica na internet, para qualquer um ver, a lista de tudo que paga. Baixamos essa lista ano a ano, de 2008 a 2026, e lemos 11,3 milhões de linhas. Separamos só o que foi pago ao CNPJ do hospital, e só o que saiu mesmo do caixa.

São 2.778 pagamentos, somando R$ 328,89 milhões em 19 anos. Todos os meses de todos os anos, atravessando quatro governos.

No primeiro ano de Raquel Lyra, o valor caiu 24,65%. No ano seguinte, caiu mais 6,49%.

Dois anos seguidos de queda. O contrário exato do que a oposição disse.

Mas o melhor está na comparação que ninguém fez.

Quem acusa hoje governou Pernambuco até 2022. Nos dois últimos anos do governo do PSB, o repasse a esse hospital dobrou. Subiu 49,57% em 2021 e mais 34% em 2022 — de R$ 16,3 milhões para R$ 32,7 milhões. Cem por cento de aumento em dois anos.

Aí veio a troca de governo.

Em 2023, caiu. Em 2024, caiu de novo. Em 2025, subiu 50,73% — e é justo dizer que esse é o maior salto anual de toda a série, já nesta gestão.

Só que, mesmo com esse aumento, o hospital fechou 2025 recebendo 6,2% a mais que em 2022. Seis por cento em três anos.

Contra cem por cento em dois, no governo de quem hoje aponta o dedo.

Os valores não têm correção pela inflação e somam fontes diferentes, inclusive o plano de saúde dos servidores do Estado, que não é SUS. Isso vale para os dois lados da comparação.

E o tal “aumento de 42% no primeiro ano” não existe na conta do próprio Estado. Lá está escrito o contrário.

Batemos em nove portas

Quando um hospital é acusado de desviar quase R$ 1 milhão, a primeira pergunta que qualquer pessoa faz é simples: e antes? Já aprontou alguma?

Ninguém tinha ido ver. Nós fomos.

Batemos em nove portas. Não olhando por cima, não pegando uma amostra: lendo a lista inteira, do primeiro ao último nome, com data de consulta anotada.

Primeira porta. O Tribunal de Contas da União. Ele guarda a lista das empresas proibidas de contratar com o governo. Procuramos o hospital. Não está lá.

Segunda. No mesmo tribunal, a lista das pessoas proibidas de assumir cargo público. Procuramos Jorge de Noronha Branco Neto, o dono. Não está lá.

Terceira. Ainda no TCU, a lista de quem teve conta pública reprovada. Nem o hospital, nem o dono.

Quarta. A Controladoria-Geral da União, o órgão que fiscaliza o governo federal por dentro. Tem a lista das empresas já punidas. Digitamos o CNPJ. Digitamos o nome. A tela respondeu com todas as letras: “nenhum registro encontrado”.

Quinta. O Ministério Público de Pernambuco. Ele publica tudo que suas promotorias fazem, todo dia, e esses arquivos ficam abertos na internet. Baixamos ano por ano, de 2016 a 2026 — onze anos, 5,4 gigabytes de documento — e procuramos tudo que saiu das promotorias de Garanhuns. Nenhuma linha sobre o hospital.

Sexta. A Justiça estadual. Nenhum processo por improbidade administrativa — que é o processo de quem desvia dinheiro público.

Sétima. A Justiça Federal. A mesma coisa.

Oitava. Processo criminal, em qualquer instância: nenhum.

Nona. Ação por dano ao dinheiro público, movida por promotor: nenhuma.

Nove portas. Nove vezes nada.

O hospital abriu em 1970. São 56 anos de porta aberta, e não existe uma única condenação contra ele nem contra o dono em nenhuma dessas listas.

Não vamos vender isso como atestado de perfeição, porque não é. É o que está escrito nos registros públicos do país — os mesmos que qualquer repórter podia ter aberto antes de estampar “quase R$ 1 milhão desviado” em rede nacional.

Ninguém abriu.

Entenda sem juridiquês

Ser fiscalizado não é ser acusado. O Ministério da Saúde faz cerca de 400 fiscalizações por ano. Todo lugar que recebe dinheiro público pode ser conferido, e é bom que seja.

Glosa é quando o fiscal olha uma conta paga e diz: “isso aqui não está comprovado do jeito que a norma manda — devolve.” Não significa que o serviço não existiu. Significa que o papel que deveria provar o serviço não estava lá, ou estava pela metade.

Relatório não é condenação. É o que a equipe técnica encontrou. Depois vem a defesa de quem foi fiscalizado, a análise dessa defesa e a decisão final. Enquanto isso não termina, ninguém foi condenado a nada. É exatamente onde este caso está.

O que fica

Falta o principal, e vamos dizer com todas as letras: o relatório não é público.

Todos os números que rodaram o país — os R$ 55,89 milhões, os R$ 905.233,95, as 90 sessões de hemodiálise — chegaram pela imprensa e por um letreiro de televisão. Ninguém de fora leu o documento.

O Contraditório pediu a íntegra ao Ministério da Saúde em 15 de agosto, pelo protocolo 25072.053762/2026-33, com prazo até 8 de setembro. Quando chegar, será publicado aqui — diga o que disser.

Também não sabemos quem entregou o relatório à imprensa em 13 de agosto. Nem quem chamou os jornalistas em fevereiro.

O que existe, no fim das contas, é uma fiscalização administrativa com o documento trancado — e contestada pelos dois lados. A Secretaria Estadual de Saúde vai à Justiça pedir revisão. O hospital diz que vai questionar pelas vias cabíveis. Ninguém foi condenado. Ninguém é réu. Não há processo criminal, não há ação por desvio, não há sanção.

E existe uma pergunta que ninguém respondeu.

Junte as peças na ordem em que elas aconteceram.

Uma fiscalização entre quatrocentas do ano. Pedida por um deputado da oposição, em outubro. Com a imprensa convidada para o primeiro dia, antes de existir qualquer conclusão. O presidente da Casa que a encomendou trocando de partido no meio do caminho para entrar no projeto do adversário da governadora. Esse mesmo presidente no palanque, em 1º de agosto, chamando-a de pior governadora da história. As chapas na rua no dia 2. O relatório pronto no dia 12. O país inteiro sabendo no dia 13.

Tudo isso numa campanha em que o candidato da oposição caiu de 55% para 37% em um ano, e em que a Justiça Eleitoral já mandou tirar do ar conteúdo feito por máquina contra a governadora.

E, no fim de toda essa engrenagem, o que sobra de dinheiro sem explicação documental são R$ 7.983,95.

Sete mil, novecentos e oitenta e três reais e noventa e cinco centavos.

Foi isso que virou “quase R$ 1 milhão” no telejornal.

Quem montou essas peças nessa ordem sabe por quê. Até agora, não disse.

Enquanto não diz, ficam de pé os fatos que fomos conferir um por um. O hospital atravessou 56 anos sem uma única condenação. Recebe do Estado há 19 anos, todos os meses, em quatro governos diferentes. Nos dois processos em que aparece contra o poder público, é ele quem cobra — e ganhou os dois. E no primeiro ano da atual gestão, o repasse a ele caiu.

Nada disso apareceu na manchete que rodou o Brasil.

Aqui em Garanhuns, 800 pessoas dependem daquele prédio na Simoa Gomes para fazer hemodiálise e tratar câncer. Elas não têm partido, não votam em pesquisa e não aparecem em plantão de telejornal.

Elas só precisam que o hospital continue aberto — e que, quando alguém disser que ele desviou quase R$ 1 milhão, alguém também tenha ido conferir.

O que o hospital respondeu

No dia seguinte à reportagem nacional, a Casa de Saúde publicou uma nota de esclarecimento sobre o relatório. É o primeiro documento em que a instituição responde ao texto final da auditoria — e ele tem um número que nenhuma reportagem citou: Relatório Final da Auditoria nº 20.034.

A nota diz que os valores apontados representam aproximadamente 1% do total de recursos auditados no período. Nossa conta chegou a 1,62%, sobre a base que a própria imprensa divulgou. As duas contas dizem a mesma coisa: é uma fração pequena.

O ponto novo é o que, segundo o hospital, está dentro dessa fração. Não é procedimento que não aconteceu. É divergência sobre como o procedimento foi anotado:

os valores incidem, “em sua maior parte, sobre divergências de entendimento quanto à codificação administrativa aplicável a cirurgias oncológicas efetivamente realizadas”

Traduzindo: a cirurgia foi feita, o paciente foi operado. O que se discute é qual código administrativo deveria ter sido usado para registrar aquela cirurgia na papelada do SUS.

E o hospital vai além. Diz que avaliar isso longe de quem examinou o paciente invade um espaço que a lei reserva à autonomia médica:

“É o médico assistente quem examina o paciente, quem domina a técnica cirúrgica pertinente ao caso, quem conhece as particularidades e as limitações assistenciais da região onde atua, e quem, no centro cirúrgico, toma a decisão técnica sobre a via de acesso e a reconstrução mais adequadas a cada caso concreto.”

A nota afirma que da direção “jamais partiu qualquer orientação, direta ou indireta, que interferisse na autonomia técnico-científica” dos profissionais, e anuncia que a instituição irá questionar os valores pelas vias cabíveis, com base na documentação médica.

O hospital se descreve como parte da rede complementar do SUS há 55 anos, atravessando governos de matizes diferentes. O registro na Receita Federal aponta fundação em 28 de julho de 1970.

Um dia antes, sobre a hemodiálise, a instituição já havia dito que a auditoria apontou ausência de comprovação documental em 90 sessões, diante de aproximadamente 135 mil realizadas no período — e que “a ausência pontual de uma assinatura ou de determinado registro em um documento específico não significa, necessariamente, que o atendimento não tenha sido realizado.”

Nada disso é decisão final. É a versão do hospital, dita por escrito e assinada. Ela não estava na reportagem que correu o país.

O outro lado

O hospital e a Secretaria Estadual de Saúde já se manifestaram publicamente, e o que disseram está acima e ao longo desta reportagem. As perguntas abaixo continuam sem resposta.

O O Contraditório procura o Ministério da Saúde para saber: quem convocou a imprensa para acompanhar o início da fiscalização, em fevereiro; como o relatório final chegou aos veículos no dia 13 de agosto, se ele não é público; qual o percentual médio de glosa nas cerca de 400 fiscalizações que o órgão faz por ano; e se parte das divergências apontadas na oncologia se refere à escolha de protocolo de quimioterapia pelo médico assistente — e, se sim, com base em qual norma.

Procura a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para saber quantos registros de hemodiálise foram localizados depois da fiscalização, se houve determinação de devolução de valores e qual o volume atual de atendimento pelo SUS.

Procura a Secretaria Estadual de Saúde para saber se a ação judicial anunciada já foi ajuizada, e qual a memória de cálculo dos cerca de R$ 67 milhões que informou ter repassado ao hospital entre 2023 e 2025.

Procura o deputado Rodrigo Farias para saber quais documentos embasavam, em outubro de 2025, as expressões que usou em plenário, e se teve acesso ao relatório final antes da divulgação pela imprensa.

Procura a presidência da Assembleia Legislativa para saber por que as matérias do site da Casa sobre este caso foram retiradas do ar e quando voltam.

O espaço está aberto para manifestação, e esta matéria será atualizada assim que houver resposta — de qualquer um dos citados.

Como apuramos

Assistimos e transcrevemos a reportagem de 13 de agosto do começo ao fim, quadro a quadro, inclusive o letreiro em que aparece o valor.

Depois fomos aos registros. Consultamos a Receita Federal, o Tribunal de Contas da União, a Controladoria-Geral da União, as listas federais de empresas punidas, a base do Ministério Público de Pernambuco ano a ano de 2016 a 2026, o Diário de Justiça Eletrônico Nacional, o cadastro nacional dos estabelecimentos de saúde, o Conselho Regional de Medicina, o Tribunal de Contas do Estado e a lista de pagamentos do Governo de Pernambuco, com os 19 arquivos anuais lidos linha por linha.

Os números da disputa eleitoral vêm de pesquisas registradas: Quaest, ouvindo 900 eleitores entre 22 e 26 de julho, e Datafolha, com 1.022 entrevistas entre 28 e 30 de julho. As ações sobre desinformação foram protocoladas pela campanha da governadora no Tribunal Regional Eleitoral e na Procuradoria Regional Eleitoral em 31 de julho, e a resposta do PSB está reproduzida acima, no mesmo espaço.

Onde a consulta falhou, dissemos que falhou. Onde a lista foi lida inteira, dissemos isso também. É a diferença entre “não achamos” e “não existe” — e ela importa.

Uma última observação de método. Parte da cobertura nacional chamou a unidade de hospital filantrópico. Ela não é: a Receita Federal e o Conselho Regional de Medicina a registram como empresa privada com fins lucrativos. O dado não muda nada do que está acima. Mas quem escreve sobre um assunto deveria saber do que está falando.


Publicidade
espaço publicitário · 970×90

Gostou? Receba o Contraditório todo dia.

Um resumo gratuito do Agreste e do Brasil, toda manhã no seu e-mail.

Pronto! Você foi inscrito. O resumo chega toda manhã.