Cultura de Garanhuns contratou R$ 24,4 milhões em shows e estrutura no 1º semestre de 2026
Levantamento do O Contraditório abriu, um a um, todos os contratos publicados no Diário Oficial. Só em cachês — de Matheus e Kauan (R$ 725 mil) a Luísa Sonza (R$ 560 mil) —, a Secretaria de Cultura comprometeu R$ 20,3 milhões de janeiro a junho. Com a estrutura dos eventos, a conta chega a R$ 24,4 milhões: mais de R$ 134 mil por dia, todos os dias.
GARANHUNS — A Secretaria Municipal de Cultura de Garanhuns comprometeu R$ 24.381.101,15 com shows e com a estrutura de eventos no primeiro semestre de 2026. Comprometer, aqui, significa assinar o contrato e reservar o dinheiro no orçamento — como quem fecha uma compra que será paga na entrega, ainda que o show aconteça meses depois.
O valor se divide em duas partes: 87 apresentações artísticas contratadas, que somam R$ 20,3 milhões em cachês; e contratos de estrutura e serviços — palco, tendas, segurança e alimentação —, que respondem por outros R$ 4,1 milhões.
Os números são resultado de um levantamento do O Contraditório, que abriu e conferiu, contrato por contrato, todos os atos da Secretaria publicados no Diário Oficial dos Municípios de Pernambuco entre 1º de janeiro e 30 de junho. Cada valor citado nesta reportagem tem um código de verificação pública no Diário.
Para dimensionar o tamanho: não se trata de um gasto concentrado apenas nos dias do Festival de Inverno. Distribuído pelos 181 dias do primeiro semestre — de 1º de janeiro a 30 de junho —, o valor comprometido representa uma média de mais de R$ 134 mil por dia, todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados. E o dinheiro não está diluído em pequenas apresentações: mais de 25 shows custaram, cada um, R$ 300 mil ou mais, e um único deles — Matheus e Kauan — saiu por R$ 725 mil por uma só noite.
O que os documentos mostram
A lista de contratados reúne nomes de projeção nacional. Os dez maiores cachês, segundo os atos publicados, foram:
- Matheus e Kauan — R$ 725 mil
- Xand Avião — R$ 650 mil
- Capital Inicial — R$ 620 mil (18 de julho, no Festival de Inverno)
- Alexandre Pires — R$ 600 mil
- Henry Freitas — R$ 600 mil
- Luísa Sonza — R$ 560 mil
- Cláudia Leitte — R$ 530 mil
- Jota Quest — R$ 515 mil
- Roupa Nova — R$ 500 mil
- João Gomes — R$ 500 mil
A relação segue com Gustavo Mioto (R$ 500 mil), Zezo, Alcione, Ferrugem, Filipe Ret, Tarcísio do Acordeon, Felipe Amorim (R$ 450 mil cada), Diego e Victor Hugo (R$ 400 mil), Paula Fernandes (R$ 360 mil), Dilsinho (R$ 350 mil), Anavitória (R$ 340 mil), Os Paralamas do Sucesso (R$ 320 mil), Márcia Felipe, Duda Beat (R$ 300 mil), Padre Fábio de Melo (R$ 290 mil), Hungria e Elba Ramalho (R$ 280 mil), Biquini Cavadão (R$ 260 mil) e Tribo da Periferia (R$ 250 mil), entre dezenas de outras atrações, muitas delas regionais.
Boa parte dos shows está concentrada em julho, mês do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) — um dos maiores eventos culturais do interior do Nordeste —, e em datas do calendário de São João.
O maior contrato de serviços não é palco nem som — é comida
Dentro dos R$ 4,1 milhões de estrutura e serviços, o contrato mais caro de todos não paga iluminação, nem sonorização, nem montagem de palco. Paga coffee break, jantar e lanche: um único contrato reservou R$ 1.589.897,00 — quase R$ 1,6 milhão — apenas em alimentação para as atividades da Secretaria de Cultura. Sozinho, esse contrato de comida responde por quase 40% de toda a rubrica de estrutura do semestre — e supera, individualmente, o cachê de qualquer um dos 87 shows contratados.
Para sentir o tamanho
Os valores ganham outra dimensão quando comparados ao custo de vida da população — todas as contas abaixo usam fontes públicas oficiais:
- O total de R$ 24,4 milhões daria para pagar o salário de quase 400 professores da educação básica durante um ano inteiro (piso nacional de R$ 5.130,63), ou para comprar mais de 40 mil cestas básicas.
- Só o R$ 1,58 milhão do coffee break, jantar e lanche daria para comprar mais de 2.600 cestas básicas — ou pagar 25 professores por um ano.
- O cachê de uma única noite de Matheus e Kauan (R$ 725 mil) equivale a quase 12 anos do salário de um professor — ou a 37 anos de trabalho de quem recebe um salário mínimo.
Fontes: piso do magistério 2026 (Portaria MEC nº 82/2026, R$ 5.130,63); salário mínimo 2026 (R$ 1.621); cesta básica — DIEESE, Recife, cerca de R$ 600.
Entenda
O que é o Diário Oficial? É o “mural obrigatório” do poder público. Toda prefeitura é obrigada por lei a publicar ali cada contrato e cada gasto. É público e gratuito — qualquer cidadão consulta. Foi ali que este levantamento foi feito, sem nenhuma informação secreta.
O que é “inexigibilidade de licitação”? Licitação é a disputa de preços que o governo normalmente é obrigado a fazer antes de contratar — vence quem oferece a melhor proposta. Mas a lei (art. 74 da Lei 14.133/2021) prevê uma exceção: quando só existe um fornecedor possível, não há como fazer disputa. É o caso de artistas consagrados — não se pode abrir uma “concorrência de preços” para contratar a Elba Ramalho, porque só existe uma Elba Ramalho. Essa contratação direta se chama inexigibilidade, e é legal.
Então qual é a questão? A lei permitir a contratação direta não significa que o preço possa ser qualquer um. A mesma lei exige que o processo traga uma justificativa de preço — um documento provando que o valor pago é compatível com o que o artista cobra de outras cidades e do mercado. É aí que mora o debate público: não no “sem licitação”, que é legal, mas no tamanho do gasto e na comprovação de que cada cachê corresponde ao preço de mercado.
E os outros termos? Ratificação é o ato em que o gestor confirma e assume oficialmente a contratação. Extrato de contrato é o resumo do contrato assinado, publicado no Diário. Pregão é o tipo de licitação usado para comprar serviços comuns — como palco, som e alimentação —, em que vence quem cobra menos.
As perguntas que os documentos deixam em aberto
O levantamento não aponta ilegalidade — aponta magnitude, e abre perguntas que cabem à administração responder:
- R$ 24,4 milhões em seis meses é proporcional ao orçamento e à população de Garanhuns? Como esse valor se compara ao de outras prefeituras de porte parecido?
- Cada um dos 87 contratos tem a justificativa de preço exigida por lei? Os cachês batem com o que esses mesmos artistas cobraram de outras cidades no período?
- Um único contrato de R$ 1,58 milhão só em coffee break, jantar e lanche — como se explica e como foi dimensionado?
As contratações por inexigibilidade são assinadas pela secretária municipal de Cultura, Sandra Cristina Rodrigues Albino, irmã do prefeito Sivaldo Albino, que a nomeou para a pasta em 2021.


O que diz a Prefeitura
A reportagem procurou a Prefeitura de Garanhuns e a Secretaria de Cultura para que se manifestassem sobre o total comprometido, sobre as justificativas de preço dos contratos e sobre o contrato de alimentação de R$ 1,58 milhão. Até o fechamento desta publicação, não houve resposta. O espaço permanece aberto, e qualquer manifestação será publicada na íntegra.
Como apuramos
- Fonte: Diário Oficial dos Municípios de Pernambuco (AMUPE), atos da Secretaria de Cultura de Garanhuns, de 1º/01 a 30/06/2026.
- Método: cada ato foi aberto e lido individualmente. Foram somadas apenas as contratações consumadas (ratificações de inexigibilidade e extratos de contrato assinados). Avisos de licitação — que trazem apenas valores estimados — foram descartados. Também ficaram fora da soma atos que não são despesa com eventos: permissões de uso de área pública (em que é a empresa quem paga ao Município) e aquisições destinadas a outras secretarias.
- Rigor contra erro: cada show foi contado uma única vez, por número de processo, para não duplicar quando o mesmo contrato aparece como ratificação e como extrato. Erratas que corrigiram valores foram aplicadas; contratos revogados foram excluídos. Na dúvida, adotou-se sempre o valor menor.
- Confira você mesmo: em diariomunicipal.com.br/amupe, na busca, informe o código que acompanha cada contrato.
Os R$ 24,4 milhões desta primeira metade do ano são o retrato do quanto e do como a Cultura de Garanhuns comprometeu seus recursos. Se cada contrato traz a justificativa de preço que a lei exige — e se esses valores encontram respaldo no mercado — é a pergunta que abre o próximo capítulo desta série.
A lista completa: os contratos, um por um
Transparência total. Abaixo estão os 87 shows e os 11 contratos de estrutura e serviços de eventos somados nesta reportagem, do maior ao menor valor. Qualquer pessoa pode conferir cada um: em diariomunicipal.com.br/amupe, na busca, basta informar o Código Identificador que aparece ao lado do contrato.





