Terça-feira, 1 de setembro de 2026
o CONTRADITÓRIO Buscar
GARANHUNS AGRESTE PERNAMBUCO BRASIL MUNDO ECONOMIA ESPORTES CULTURA CURIOSIDADES
Publicidade
espaço publicitário · 970×90
Pernambuco

Quatro partidos, três saídas e agora 18 cidades: o histórico de rupturas que voltou a cercar Marília Arraes

Cinco prefeitos do Agreste e da Mata Sul retiraram o apoio à candidatura dela ao Senado depois que a primeira suplência da chapa teve três pretendentes em uma semana. O Contraditório contou a lista nome por nome e foi ao histórico: são quatro partidos, três saídas e rupturas que passam pelo partido da família, pelo PT, pelo primo e pela irmã.

Quatro partidos, três saídas e agora 18 cidades: o histórico de rupturas que voltou a cercar Marília Arraes
Reprodução / Redes sociais de Marília Arraes

Em Canhotinho, em Lajedo, em Cupira, em São Caetano e em Sanharó, o prefeito que estava com Marília Arraes em abril não está mais.

Cinco prefeitos do Agreste e da Mata Sul anunciaram, no sábado, que retiraram o apoio à candidatura dela ao Senado. Com eles saíram vices, presidentes de Câmara, vereadores e ex-prefeitos de outras treze cidades.

O que abriu esse buraco cabe em uma linha: uma vaga, três pretendentes.

E o que ele revela é mais antigo do que esta semana.

O que foi combinado, o que foi oferecido e o que foi entregue

O grupo do deputado estadual Álvaro Porto (MDB), presidente da Alepe, esperava a primeira suplência do Senado para Alvinho Porto, ex-prefeito de Quipapá.

Em 1º de agosto, seis dias antes do rompimento, a mesma primeira suplência foi oferecida ao grupo político dos Coelho, num movimento de bastidor para ampliar a chapa.

Em 7 de agosto, a vaga foi anunciada para Abel Neto (PSB), ex-vereador do Cabo de Santo Agostinho e sobrinho do prefeito da cidade, Lula Cabral.

No mesmo dia, às 18h33, Álvaro Porto e o filho, Gabriel Porto (PSB), candidato a deputado federal, divulgaram nota conjunta rompendo com a candidatura.

O texto deles não deixa margem:

“Fomos os primeiros a declarar apoio à candidatura de Marília Arraes ao Senado, quando ela sequer era oficialmente candidata da chapa majoritária. (…) Infelizmente, Marília, mais uma vez, demonstrou dificuldade em cumprir aquilo que foi acordado e em honrar a palavra empenhada. (…) Pernambuco não pode ter uma senadora que não cumpre a palavra.”

Quem fala ali é o presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco. E o que ele diz é sobre palavra dada, não sobre crime.

Os cinco prefeitos

No dia seguinte, 8 de agosto, o rompimento tinha virado fila.

Os prefeitos que retiraram o apoio
Josafá Almeida (PRD)São Caetano
Sandra Paes (Republicanos)Canhotinho
Erivaldo Chagas (Republicanos)Lajedo
Duda Lira (PSDB)Cupira
César Freitas (PC do B)Sanharó

Um deles não é estreante nesse gesto. Josafá Almeida é presidente estadual do PRD além de prefeito de São Caetano — e, em março deste ano, foi ele quem anunciou publicamente que Marília não fazia mais parte da federação PRD/Solidariedade. Foi depois daquele episódio que ela saiu do Solidariedade e foi para o PDT, o partido pelo qual disputa agora. É a segunda porta que o mesmo dirigente fecha para ela no mesmo ano.

Quantas cidades, de verdade

O número que correu em Pernambuco no fim de semana não é o mesmo em lugar nenhum.

O @ricardoantunesblog publicou uma arte falando em 18 municípios e, no texto do mesmo post, em “pelo menos 17, incluindo cinco prefeitos”. O Fala PE e o Diário de Pesqueira falam em cinco prefeitos e lideranças de outros 17 — o que daria 22. Nenhum deles nomeia 22 cidades.

Contamos a lista, uma por uma.

Com nome e sobrenome, são 18 municípios. Cinco com prefeito. Outros treze onde saíram vice-prefeitos, presidentes de Câmara, vereadores, ex-prefeitos e grupos locais: Olinda, Quipapá, Catende, Caruaru, Água Preta, Capoeiras, Palmares, Exu, Lagoa de Itaenga, Sertânia, Lagoa dos Gatos, Paulista e Panelas.

O resto é número sem cidade atrás. Até aparecer, o que esta reportagem sustenta é 18.

O que Marília respondeu

A candidata não rebateu a acusação. Em nota, no dia 8, disse:

“Quando um não quer, dois não brigam”

“Faz parte da democracia. Desejo boa sorte a eles na eleição. Nosso foco agora é unir pessoas e trabalhar para mudar Pernambuco”

Ela não especificou qual acordo teria sido descumprido e tratou o rompimento como direito de Álvaro e Gabriel Porto.

O que a ficha dela mostra

A acusação de Álvaro Porto é sobre palavra empenhada. É uma acusação política, e ela responde por si. Mas ela não cai num terreno vazio: a trajetória de Marília Arraes é feita de rompimentos, e cada um deles tem data e motivo registrados.

PSB — 2005 a 2016. Não era um partido qualquer: era o partido da própria família, o de Miguel Arraes, o avô, e o de Eduardo Campos, o primo que o comandava. Ela saiu depois de onze anos alegando “falta de democracia interna e mudança das convicções e ideologias do partido”. Ao sair da legenda, saiu do arranjo familiar inteiro.

Publicidade
espaço publicitário · 300×250

PT — 2016 a 2022. Chegou a presidir o partido em Pernambuco. Saiu quando o diretório estadual fechou aliança com o PSB — de novo o partido da família no caminho — e ela não foi a escolhida para a disputa que queria.

Solidariedade — 2022 a 2026. Saiu em março deste ano. Quem anunciou publicamente a saída foi o presidente estadual do PRD, Josafá Almeida, o mesmo prefeito de São Caetano que agora retira o apoio: ele informou que ela não fazia mais parte da federação PRD/Solidariedade.

PDT — desde 12 de março de 2026. É a legenda pela qual disputa o Senado.

Quatro partidos e três saídas. E, entre elas, 2020: ela e o primo João Campos, filho de Eduardo, foram ao segundo turno da eleição do Recife um contra o outro, num confronto que a imprensa nacional descreveu como o racha do clã Arraes-Campos. Ela perdeu por 56,27% a 43,73% — para o mesmo João Campos de cuja chapa ela hoje faz parte, e cuja candidatura ao Governo o grupo de Álvaro Porto continua apoiando mesmo depois de romper com ela.

A distância também alcançou a irmã. Maria Arraes, deputada federal eleita em 2022 com 104.571 votos, ficou fora dos planos eleitorais de Marília — as duas, registrou a imprensa política do estado em novembro passado, estão em rota de colisão há tempos.

Os cargos que não vieram

Em 2022, Marília Arraes foi ao segundo turno do Governo de Pernambuco e perdeu com 2.190.264 votos. Foi o maior desempenho da esquerda pernambucana naquele ciclo.

Derrota desse tamanho costuma virar cargo. Virou, para os outros.

Paulo Câmara, ex-governador, foi indicado por Lula para a presidência do Banco do Nordeste em 2023 e voltou ao cargo em março deste ano. Danilo Cabral, que naquela mesma eleição de 2022 nem chegou ao segundo turno, foi nomeado superintendente da Sudene em junho de 2023.

Marília Arraes, que chegou ao segundo turno, não recebeu posto nenhum.

Ela cita Lula em quase todo palanque. A recíproca, em cargo, nunca veio. E, neste ano, quem carrega a legenda do PT na disputa do Senado não é ela: é Humberto Costa. Marília concorre pelo PDT, a quarta legenda da sua trajetória.

Trocar de partido é legal. Romper é direito de quem rompe. Ninguém é obrigado a distribuir cargo. Só que, quando alguém a acusa em público de não honrar acordo, a acusação não cai no vazio: cai sobre uma sequência de acordos desfeitos — com o partido da família, com o PT, com a federação, com o primo, com a irmã. E agora com o presidente da Assembleia e cinco prefeitos.

Álvaro Porto é o nome mais recente dessa lista. Não é o primeiro.

O detalhe que muda o tamanho do problema

Quem saiu não foi para o outro lado.

O grupo de Álvaro Porto continua apoiando João Campos (PSB), candidato ao Governo — e primo de Marília. O próprio Álvaro é declaradamente crítico da gestão de Raquel Lyra: em 1º de agosto, disse que Pernambuco vive um “governo de fachada”.

Não é troca de lado. É saída dirigida a um nome só, dentro da mesma chapa que esses prefeitos continuam carregando. Numa disputa ao Senado, em que cada cidade do interior vale estrutura, cabo eleitoral e palanque, essa é a baixa que nota nenhuma repõe.

Por que isso importa aqui

Canhotinho, Lajedo, Cupira, São Caetano, Sanharó, Capoeiras, Panelas, Catende, Quipapá, Palmares, Água Preta.

Não é briga do Recife. É o Agreste Meridional e a Mata Sul — a região de Garanhuns — saindo em bloco de uma candidatura majoritária a quatro meses da eleição.

Em 12 de abril, quando Álvaro e Gabriel Porto lançaram suas pré-candidaturas em Canhotinho ao lado de João Campos, a fotografia era outra. Marília estava dentro dela.

Quatro meses depois, Canhotinho é a primeira cidade da lista de quem saiu.

Como apuramos

A relação dos cinco prefeitos e das demais cidades foi publicada em 8 de agosto pelos perfis @ricardoantunesblog, @blogfalape e @diariodepesqueira, e as três listas coincidem nos nomes e nos partidos. Os prints estão arquivados nesta redação.

A nota conjunta de Álvaro Porto e Gabriel Porto foi lida na íntegra na publicação do Diario de Pernambuco de 7 de agosto, às 18h33. A resposta de Marília Arraes e o registro de que a primeira suplência havia sido oferecida ao grupo dos Coelho em 1º de agosto foram lidos diretamente no Blog do Elielson.

A contagem de municípios desta reportagem foi feita sobre a lista nominal, e não sobre os números anunciados nas manchetes — que divergem entre si e das próprias listas.

O histórico partidário — datas de filiação, de desfiliação e os motivos declarados em cada saída — foi conferido no registro público da trajetória da parlamentar e na cobertura de imprensa da época de cada mudança.

As nomeações citadas são atos publicados: Paulo Câmara na presidência do Banco do Nordeste, por indicação do governo federal, e Danilo Cabral na superintendência da Sudene, com nomeação assinada pela Casa Civil em junho de 2023. O afastamento entre Marília Arraes e a irmã, a deputada federal Maria Arraes, foi registrado pela imprensa política do estado em novembro de 2025. Os números das eleições de 2020 e 2022 são os resultados oficiais.

Marília Arraes e o PDT de Pernambuco foram procurados e terão espaço integral aqui quando se manifestarem.

Publicidade
espaço publicitário · 970×90

Leia também

Gostou? Receba o Contraditório todo dia.

Um resumo gratuito do Agreste e do Brasil, toda manhã no seu e-mail.

Pronto! Você foi inscrito. O resumo chega toda manhã.