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Política

João Campos baixou a 2% o imposto das bets para atraí-las ao Recife. Agora aparece com Lula pelo fim delas

A justificativa do projeto falava em atrair empresas. O guia da própria prefeitura chama a mudança de benefício fiscal. João depois disse ser contra as bets e negou que as tivesse beneficiado.

João Campos baixou a 2% o imposto das bets para atraí-las ao Recife. Agora aparece com Lula pelo fim delas
Foto: Karol Rodrigues/DP Foto. Montagem editorial: O Contraditório.

Lula ergueu no Recife um cartaz escrito “fim das bets”. João Campos estava ao lado. Segundo a cobertura do ato de 25 de setembro, ele ajudou o presidente a escrever a mensagem e os dois a exibiram ao público.

Três dias antes, João havia dito que era pessoalmente contra as apostas. Também negou, segundo o Jornal do Commercio, que a Prefeitura do Recife tivesse beneficiado as empresas do setor ao mudar a tributação.

Mas a palavra benefício está no material da própria prefeitura. Um guia oficial para investidores apresenta a regra oferecida às casas de apostas sob o título “Benefício Fiscal”. Explica que o imposto municipal sobre seus serviços caiu de 5% para 2% e que a alíquota menor passou a valer em toda a cidade.

📄 Confira o guia oficial do Invest Recife

Guia oficial de 2025 que denomina a regra para casas de apostas de benefício fiscal.

⬇ Abrir Guia do Investidor (PDF)

O projeto que fez isso foi enviado por João Campos à Câmara. A justificativa dele dizia a finalidade: atrair empresas de apostas ao Recife. João sancionou a lei em 2 de abril de 2025.

📄 Leia a Lei 19.365/2025 no Diário Oficial

Edição oficial do Recife que publicou a lei assinada por João Campos. O link é oferecido para conferir o texto integral.

⬇ Abrir Diário Oficial (PDF)

É aí que a contradição aparece inteira. O político que agora se apresenta ao lado do cartaz contra as bets assinou a medida que sua gestão ofereceu para trazê-las à cidade.

O que João Campos mudou

O imposto em questão é o ISS, cobrado pelo município sobre determinados serviços. Na lei do Recife, serviços ligados à distribuição e venda de produtos de loteria e apostas passaram à alíquota de 2%. A regra geral que alcançava esse grupo fora da área beneficiada era de 5%.

Há um detalhe importante: os 2% já existiam em parte do centro, na área do Recentro. João não criou essa alíquota do zero. A lei dele ampliou o benefício para todo o Recife. Foi assim que o líder do governo, vereador Samuel Salazar, defendeu a mudança na Câmara. É também assim que o guia oficial da prefeitura a apresenta.

Essa explicação não derruba a crítica. Torna a escolha mais nítida: em vez de manter a condição especial numa área limitada, a gestão de João Campos a estendeu às empresas de apostas que se instalassem em qualquer parte da cidade, desde que cumprissem os requisitos. O guia municipal usa expressamente as palavras “benefício fiscal”.

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E o projeto não escondia a intenção. A justificativa enviada à Câmara apontava a redução como forma de atrair empresas do segmento de apostas. A Câmara aprovou o texto em duas votações; João o sancionou como Lei municipal 19.365/2025.

Não é preciso dizer que o Recife virou a “capital das bets” para demonstrar o que aconteceu. Não há, nesta apuração, uma contagem comparativa de sedes que sustente esse título. O fato documentado é suficientemente forte: João Campos ampliou para a cidade inteira um imposto menor apresentado por sua prefeitura como instrumento para atrair o setor.

A defesa dele: arrecadar mais

João Campos não ficou sem resposta. Na sabatina de 22 de setembro, disse que era contrário às bets, aos cassinos on-line e a outros jogos de aposta. Ao mesmo tempo, defendeu a mudança fiscal feita quando era prefeito. Segundo ele, o Recife teria saído de cerca de R$ 80 mil arrecadados em seis anos para R$ 80 milhões em um ano. Argumentou que, sem a lei, a cidade poderia não arrecadar nada dessa atividade.

Esses números são a defesa apresentada por João; não são, por si, uma auditoria independente da receita. E a defesa explica por que ele fez a escolha, não apaga qual foi a escolha. Mesmo que o objetivo fosse arrecadar mais, a gestão ofereceu a alíquota menor e declarou que queria atrair empresas de apostas.

Há uma diferença entre dizer “sou contra as bets” e dizer “quando fui prefeito, dei a elas um benefício fiscal para que viessem ao Recife”. João tem o direito de mudar de posição. O leitor tem o direito de conhecer as duas.

Do imposto menor ao cartaz

Em novembro de 2025, a presença do setor apareceu em outro lugar da cidade: parques públicos sob concessão privada exibiam publicidade de bets. Após críticas, a prefeitura pediu à concessionária a retirada dos anúncios de áreas frequentadas por crianças e adolescentes. A publicidade nos parques não prova que a lei tributária a causou. Mostra, porém, como o debate sobre as apostas entrou na rotina de espaços administrados sob contrato com o município.

No ato de 25 de setembro de 2026, Lula escreveu e ergueu o cartaz “fim das bets”. João Campos estava ao lado, ajudou a escrever a mensagem e a exibiu com o presidente, conforme a cobertura do SBT News. Na fotografia usada nesta reportagem, quem segura o cartaz é Lula. João aparece ao lado dele.

O gesto de João ao lado de Lula veio depois de sua declaração de que era pessoalmente contra as apostas. Veio também depois da lei que assinou e do guia em que sua prefeitura chamava a alíquota de 2% de benefício fiscal. Essas datas pertencem à mesma história.

O que a prova permite dizer

Esta apuração não encontrou base para afirmar que o Recife concentra mais bets do que qualquer outra cidade ou que tem o menor imposto do Brasil. Tampouco a redução municipal prova que João Campos ou a prefeitura cometeram crime.

O que está documentado dispensa esses atalhos: João enviou e sancionou a lei; sua justificativa buscava atrair empresas de apostas; o guia oficial a chamou de benefício fiscal; ele depois negou ter beneficiado o setor, disse ser contra as bets e apareceu ao lado de Lula no ato pelo fim delas.

Se João Campos mudou de posição, pode explicar quando e por quê. O que não pode é fazer a lei, a justificativa e o guia da própria prefeitura desaparecerem da conversa.

Como apuramos

A reportagem conferiu a tramitação do Projeto de Lei do Executivo 02/2025 na Câmara do Recife, a Lei 19.365/2025 no Diário Oficial e o guia de benefícios fiscais publicado pela prefeitura. Para a resposta de João Campos, consultou a cobertura da sabatina de 22 de setembro pelo Jornal do Commercio. Para o ato de 25 de setembro, comparou os relatos do Diario de Pernambuco e do SBT News com a fotografia de Karol Rodrigues/DP Foto. A passagem sobre os parques foi conferida com a cobertura da publicidade e com o registro municipal da concessão.

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