João põe cartazes em dúvida. A Prefeitura aliada confirma a retirada
Na campanha, João Campos diz que sua equipe não encontrou os modelos divulgados nas redes. Na gestão de seu ex-vice, a resposta é outra: oito peças foram recolhidas. O desencontro exige que o grupo político confronte suas próprias informações.

João Campos perguntou se alguém tinha visto os cartazes contra Raquel Lyra. Disse que mandou sua equipe jurídica procurar e que ela não encontrou os modelos divulgados nas redes. Informou que a equipe localizou outro panfleto ofensivo, mas insistiu na ausência dos que haviam sido postados.
A Prefeitura do Recife tem outra informação: retirou oito cartazes. Sete associavam Raquel a Flávio Bolsonaro. Um reunia a governadora, Elize Matsunaga e Flordelis numa montagem ofensiva sobre a morte de maridos. Os dois modelos apareceram nas publicações sobre os ataques.
Quem confirma a retirada é a administração de Victor Marques, ex-chefe de gabinete, ex-vice e sucessor de João na Prefeitura. Ao assumir, Victor anunciou continuidade da gestão. A informação que complica o discurso do candidato vem, portanto, de dentro do seu próprio campo político.
A dúvida que João levou à sabatina
Na sabatina da Rádio Folha de primeiro de setembro, João repudiou os ataques, defendeu investigação e negou ligação de sua campanha com o material. Também anunciou medidas contra adversários que tentavam atribuir os cartazes ao seu grupo.
Depois perguntou à jornalista Betânia Santana se ela tinha visto algum daqueles panfletos. Ao relatar a busca de sua equipe, frisou que nenhum dos divulgados havia sido localizado. Informou, na mesma resposta, que outro panfleto com ataque à honra fora encontrado. O trecho da sabatina foi reproduzido por Nill Júnior.
O problema político aparece quando essa busca é confrontada com a informação municipal. Uma equipe de campanha não encontrar cartazes não demonstra que eles nunca estiveram nas ruas. A própria Prefeitura aliada afirma ter retirado peças de dois modelos divulgados.
A Prefeitura contou o que recolheu
A confirmação veio da Secretaria Executiva de Controle Urbano, a Secon, em resposta reproduzida pelo g1 e consultada nesta terça-feira.
A secretaria informou a localização de oito peças no Bairro do Recife, descreveu os dois modelos e reconheceu a retirada. Disse também que fez registros para entrega posterior às autoridades, marcou os locais dos cartazes e identificou câmeras.
Sua justificativa é a fiscalização urbanística de rotina: retirar publicidade irregular faz parte do trabalho municipal. Essa explicação confirma que houve uma atuação sobre material físico. A resposta está na reportagem do g1.
Victor é a continuidade de João
Victor Marques chegou à Prefeitura pela chapa de João. Antes de ser vice, havia sido seu chefe de gabinete. Assumiu o comando municipal em abril, depois que João deixou o cargo para disputar o Governo de Pernambuco.
O registro oficial da posse na Câmara do Recife documenta essa trajetória e a continuidade defendida pelo novo prefeito.
É esse vínculo que dá peso ao desencontro. A gestão que ficou no Recife e a candidatura que seguiu para a disputa estadual pertencem ao mesmo projeto político. Suas manifestações sobre os cartazes precisam ser lidas juntas.
Os registros municipais podem esclarecer a diferença
O Ofício 312/2026, datado de 30 de agosto e consultado diretamente no sistema da Prefeitura, acrescenta uma orientação relevante: fotografar os anúncios antes da remoção e produzir relatório detalhado da atuação.
O documento recomenda a retirada imediata das peças ofensivas e a comunicação às autoridades policiais e eleitorais. O Contraditório obteve e leu a íntegra no Sistema Eletrônico de Informações, o SEI municipal.
O texto é um parecer, não um relatório de vistoria. As imagens anexadas reproduzem postagens; não substituem fotografias feitas pelos fiscais. Consulte o parecer no sistema oficial da Prefeitura.
📄 Leia o parecer municipal na íntegra
Ofício 312/2026, de 30 de agosto. PDF com conteúdo conferido pela redação no documento original do SEI da Prefeitura do Recife.
Os registros que a Secon diz ter produzido são o caminho para confrontar as duas versões: que peças estavam em cada ponto e quando saíram de lá. Não localizamos esses arquivos nem comprovantes de entrega nas fontes públicas consultadas.
São três modelos diferentes
A Prefeitura confirmou dois: Raquel com Flávio Bolsonaro e Raquel com Elize Matsunaga e Flordelis. A montagem das três mulheres trazia a frase “Matadoras de maridos”. Esse ataque está entre as peças que a Prefeitura reconhece ter recolhido.
Também circulou a foto de um terceiro cartaz, preto, acusando Raquel diretamente de matar o marido. Esse não consta da lista municipal. A dúvida sobre essa foto não desfaz a confirmação da montagem com as três mulheres.
Não sabemos quando a equipe de João procurou os cartazes nem se ele sabia da retirada quando falou. Não podemos afirmar que a Prefeitura os recolheu antes da busca.
Quem publicou a foto preta foi o Bastidor.PE, site de notícias de Pernambuco. A Frente Popular, coligação de João, pediu apuração da origem da imagem. Segundo o JC, a Justiça exigiu o arquivo original e a identificação de quem o produziu, enviou e recebeu.
A defesa dos jornalistas afirma que entregar esses dados poderia revelar as fontes da reportagem. Eles pediram proteção ao Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco. O pedido urgente foi negado, entre outros motivos, porque não havia prova de ordem de busca ou prisão contra eles. O julgamento final ainda estava pendente. Entenda a ordem sobre a foto e o pedido dos jornalistas.
João repudia os ataques e nega participação da campanha. O Bastidor afirma que encontrou os cartazes nas ruas e nega tê-los colocado. A Prefeitura diz que fez fiscalização regular e que encontrou dois dos modelos de cartaz. Ainda não sabemos quem produziu ou pagou pelas peças.
A explicação também está do lado de João
João precisa identificar o alcance da busca que usou para questionar as postagens. Victor e a Secon precisam apresentar a cronologia e os registros da operação que reconheceram.
A investigação dos cartazes chegou a quem publicou a fotografia. O que a Justiça quer saber — e por que os jornalistas dizem que isso ameaça suas fontes? É o que O Contraditório vai examinar na próxima reportagem.
Como apuramos
Confrontamos as publicações encaminhadas à redação com a resposta da Secon reproduzida pelo g1. Preservamos o trecho da sabatina da Rádio Folha, reproduzido por Nill Júnior, e lemos sua transcrição integral. A redação usa paráfrase e mantém a distinção de João entre os modelos procurados e o panfleto encontrado.
Obtivemos o parecer diretamente no SEI municipal e conferimos sua assinatura eletrônica. Lemos também os registros oficiais da posse de Victor e diários municipais do período do caso. As datas e o alcance da busca da equipe de João não foram estabelecidos. Não obtivemos os registros da fiscalização nem o original da foto preta. O estado judicial está atribuído à cobertura porque não foi possível recuperar a íntegra de todas as decisões.
Os áudios enviados à redação orientaram a pesquisa. Informações de bastidor sem confirmação não foram convertidas em fatos. Reunimos as manifestações públicas dos envolvidos; nesta etapa, não enviamos perguntas diretamente nem registramos recusa de resposta.
Fontes principais
- Rádio Folha — trecho da sabatina de João, reproduzido por Nill Júnior.
- g1 — resposta da Secon, versão do Bastidor e decisão de urgência.
- Câmara do Recife — posse de Victor Marques.
- Prefeitura do Recife — íntegra do Ofício 312/2026 no SEI.
- JC — investigação da foto após pedido da Frente Popular.
- JC — negativa da medida urgente no recurso dos jornalistas.
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