O nome que sumiu do papel: o parentesco com o presidente do PT-PE foi omitido do INSS duas vezes
Para assinar o acordo que rendeu R$ 3,8 bilhões, a Contag precisava declarar que nenhum dirigente seu era parente de membro de Poder. Declarou. Duas vezes. E as duas eram falsas — o presidente da entidade é irmão do deputado federal Carlos Veras, presidente do PT em Pernambuco.
Para assinar o acordo que rendeu R$ 3,8 bilhões, a Contag precisava declarar que nenhum dirigente seu era parente de membro de Poder. Declarou. Duas vezes. E as duas eram falsas — o presidente da entidade é irmão do deputado federal Carlos Veras, presidente do PT em Pernambuco.
Tem um documento de 4.340 páginas assinado pelo relator de uma CPMI do Congresso. Na página 3.750 dele começa uma seção com nome e sobrenome: Aristides Veras dos Santos.
O que vem depois não é opinião de ninguém. É a conta.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, a Contag, presidida por ele, arrecadou R$ 3.877.469.474,86 em descontos nos benefícios de aposentados entre 2015 e 2025. Isso é 36% de todo o dinheiro que saiu do bolso dos aposentados brasileiros nesse tipo de desconto, no país inteiro.
Mais de um terço. Em uma entidade só.
📄 Leia os trechos do relatório da CPMI
O O Contraditório baixou o relatório final da CPMI do INSS — 4.340 páginas — e disponibiliza aqui as 9 páginas que tratam da Contag e do parentesco, para quem quiser conferir cada palavra.
A íntegra das 4.340 páginas está no site do Senado Federal.
A pergunta que o formulário fazia
Para o INSS renovar o acordo que autorizava esses descontos, a lei exigia uma coisa simples: o dirigente da entidade tinha que declarar que não era parente de membro de Poder. É o artigo 39 da Lei 13.019. Existe para impedir que dinheiro público ande por causa de vínculo familiar.
Aristides Veras assinou essa declaração em 2019. E assinou de novo em 2024.
Nas duas, disse que não tinha esse parentesco.
Ele é irmão de José Carlos Veras dos Santos — o deputado federal Carlos Veras, do PT de Pernambuco, hoje presidente estadual do partido, com mandatos de 2019 a 2022 e de 2023 a 2027.
O relatório é seco:
“Em que pese as Declarações do presidente da CONTAG — tanto em 2019, quanto em 2024 — elas não são verdadeiras em seu conteúdo, uma vez que ARISTIDES VERAS DOS SANTOS é irmão — ou seja, colateral de 2º grau — de JOSÉ CARLOS VERAS DOS SANTOS, Deputado Federal pelo Estado de Pernambuco”
E há um detalhe na página 919 que não é acidente de forma. Na primeira declaração, o documento aponta omissão exatamente do inciso que proíbe o parentesco — e diz o que isso pode significar:
“houve omissão específica ao inciso III do art. 39 da Lei 13.019/2014, justamente o que trata dessa vedação, o que pode indicar conduta dolosa nessa omissão”
O INSS não conferiu. Renovou o acordo em 15 de agosto de 2019.
O represamento que não existia
Em 2022, a Contag foi ao INSS pedir uma exceção. Alegou que havia mais de 30 mil pessoas presas na fila do sistema Meu INSS esperando o pedido de filiação ser processado, e que por isso precisava de um desbloqueio em massa.
A auditoria do próprio INSS foi checar quantos requerimentos estavam de fato na fila.
Duzentos e treze.
O relatório chama a justificativa pelo nome: fictícia.
Com ela, a entidade obteve o desbloqueio de 30.211 benefícios em 2022 e de 34.487 em 2023 — quase 65 mil aposentadorias liberadas para receber desconto sem a autorização prévia, pessoal e específica dos titulares, nas palavras do documento.
O resultado disso tem valor: R$ 978 mil a mais por mês. Em 16 meses, R$ 15,6 milhões.
O que os aposentados disseram quando alguém perguntou
A CGU foi ouvir quem estava pagando.
97,6% dos beneficiários entrevistados não reconheciam ter autorizado o desconto. Entre os filiados a entidades ligadas à Contag, 83,3% disseram a mesma coisa.
E o relatório descreve como muita gente entrava nessa conta sem saber. Sindicatos filiados à confederação, diz o texto, condicionavam a entrega da declaração de atividade rural — o papel sem o qual o trabalhador do campo não consegue se aposentar — à autorização do desconto.
Quem precisava do documento para se aposentar assinava o desconto junto. O relatório chama isso de venda casada contra trabalhador rural vulnerável.
Vinte e dois mortos
Nos sistemas da Dataprev, sob a gestão dele, o relatório registra 22 tentativas de desconto em benefícios de pessoas já falecidas.
Registra também tentativas de inclusão em 88.268 benefícios sem os campos obrigatórios ou o termo de autorização, 92.294 tentativas rejeitadas por falta desses campos e 538.306 tentativas em benefícios bloqueados — a segunda maior incidência entre as 47 entidades investigadas no país.
Em agosto de 2024, mesmo depois de alertas formais da CGU e da auditoria interna do INSS, o acordo foi renovado outra vez.
O dinheiro que voltava e a rede de R$ 39 bilhões
O relatório também seguiu o caminho do dinheiro depois que ele saía do benefício.
Encontrou empresas que recebiam da Contag e devolviam para a Contag. A Tuttano Culinária Artesanal recebeu R$ 2.355.592,42 e transferiu R$ 1.878.201,16 de volta — o que o documento chama de “inversão flagrante do fluxo comercial esperado”.
E encontrou o elo mais grave: R$ 31.497.788,94 repassados em 1.699 transações para a Orleans Viagens e Turismo, entre 2017 e 2024. A Orleans foi alvo da primeira fase da Operação Sem Desconto, e o relatório anota que ela tem “12 automóveis, maior parte de luxo e adquiridos recentemente”.
A empresa integra a rede ARPAR — a estrutura de lavagem que, segundo a CPMI, movimentou mais de R$ 39 bilhões.
Os cinco crimes
Ao fim da seção, o relator lista os crimes pelos quais pede o indiciamento de Aristides Veras dos Santos: organização criminosa, lavagem de dinheiro, furto eletrônico, participação em fraude eletrônica e inserção de dados falsos em sistema de informações.
E resume o motivo:
“por ter utilizado de sua influência política e de declarações ideologicamente falsas para manter a CONTAG no epicentro da fraude dos descontos associativos”
O que aconteceu esta semana
Em 6 de agosto de 2026, a Polícia Federal concluiu o segundo inquérito da Operação Sem Desconto e indiciou seis pessoas. Três do INSS: o ex-presidente Alessandro Stefanutto, o ex-diretor de Benefícios André Fidelis e o ex-procurador-geral Virgílio Ribeiro de Oliveira Filho. E três da Contag: Aristides Veras dos Santos, Edjane Rodrigues e Thaísa Daiane.
Os crimes apontados pela PF: inserção de dados falsos em sistema de informática, com pena de 2 a 12 anos, e organização criminosa.
O relatório vai ao Supremo, para o ministro André Mendonça, e de lá para a Procuradoria-Geral da República, que decide se denuncia ou arquiva.
O que a Contag e a defesa respondem
A Contag afirma, em nota, a regularidade da sua atuação e a integridade institucional nos descontos feitos por meio dos Acordos de Cooperação Técnica com o INSS.
Sobre o ponto do parentesco, a entidade sustenta que o Acordo de Cooperação Técnica não se sujeita ao artigo 39, inciso III, da Lei 13.019/2014, porque não envolve repasse de recurso público — diferente de termo de fomento ou de colaboração.
Os advogados Marthius Sávio Cavalcante Lobato e Mariana Mei de Souza dizem que “as provas foram substituídas por convicções, em que o trabalho de análise documental foi trocado pelo atalho da presunção de ilicitude”. Afirmam que os descontos eram amparados pela documentação exigida e autorizados pelos beneficiários, que a Contag deu à PF “acesso próprio, com login e senha” ao seu sistema interno e entregou “HD com todo seu banco de dados copiado”, e que “a conferência da documentação não foi feita”. Para eles, o indiciamento tem caráter político.
A defesa de Aristides Veras nega irregularidade e diz que se manifestará nos autos.
O que não está escrito em lugar nenhum
O deputado Carlos Veras não é investigado. Não é indiciado. Não é acusado de nada.
Nas 4.340 páginas do relatório, o nome dele aparece em seis. Em todas, na mesma condição: o parente cuja existência foi omitida. A omissão é imputada ao irmão, não a ele. Nenhuma linha atribui ao deputado um pedido, um ato, uma influência ou um centavo.
E é justamente por isso que o caso é o que é. O parentesco com o presidente estadual do PT não era um detalhe da biografia de Aristides Veras: era o obstáculo legal que impedia o acordo. Foi ele que sumiu do papel — duas vezes.
Como apuramos
A apuração partiu da conclusão do inquérito da Polícia Federal, noticiada em 6 de agosto por O Tempo, Jovem Pan, CNN Brasil e O Povo, e do relatório da CGU revelado pela coluna de Fábio Serapião, no Metrópoles.
O documento central desta reportagem, porém, não é notícia: é o relatório final da CPMI do INSS, de março de 2026, assinado pelo relator Alfredo Gaspar. O arquivo tem 115 MB e 4.340 páginas, foi baixado do site do Senado Federal e lido aqui inteiro por busca de termos — a Contag aparece em 261 páginas, Aristides Veras em 24 e Carlos Veras em seis. Todas as citações entre aspas nesta matéria foram conferidas na página de origem, indicada quando necessário.
A posição da Contag, dos advogados e da defesa de Aristides Veras foi reproduzida a partir da nota oficial da entidade e das declarações públicas dos advogados. O deputado Carlos Veras e o PT de Pernambuco foram procurados e terão espaço integral aqui quando se manifestarem.





