Prefeitura de Garanhuns comprometeu R$ 10 milhões com coffee break, buffet e quentinha na gestão de Sivaldo Albino — e quatro empresas abocanharam quase tudo
Enquanto a fila do posto de saúde não anda, a Prefeitura de Garanhuns e as autarquias municipais do Executivo pagaram R$ 9,14 milhões em coffee break, lanche, refeição, quentinha e buffet desde 2021 — e comprometeram R$ 10,35 milhões com esse recorte. Quatro empresas concentraram 96,7% do valor pago. E num dos pagamentos, o TCE registra exatamente cem vezes o valor mostrado pelo Portal da Prefeitura.
Pense em quanto custa alimentar uma cidade inteira por um dia. Agora esqueça a cidade. Estamos falando do cafezinho da reunião, do lanchinho da formação, da quentinha da equipe no festival, do buffet da solenidade e de alimentação fornecida em outras ações oficiais. Durante a administração do prefeito Sivaldo Albino, a Prefeitura de Garanhuns e as autarquias do Executivo comprometeram R$ 10,35 milhões com esse recorte — e já pagaram R$ 9,14 milhões.
Não é merenda escolar nem compra de cesta básica. O recorte reúne coffee break, buffet, kits lanche, refeições e quentinhas servidos em eventos, formações, reuniões e ações oficiais — inclusive algumas atividades socioassistenciais. E aqui está a proporção que impede qualquer confusão: dos R$ 9,14 milhões pagos, R$ 436.927,98 estavam ligados à Assistência Social e a ações de direitos da criança ou da pessoa idosa. Desse subtotal, R$ 84.468,30 — apenas 0,92% do total da reportagem — correspondiam a alimentação destinada diretamente a famílias, gestantes e usuários. Outros R$ 345.541,18 eram buffet, lanches e refeições de reuniões, formações e atividades, e R$ 6.918,50 eram alimentação para equipes em serviço.
Os números não são boato nem estimativa. Estão nos Dados Abertos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), o órgão que fiscaliza as contas do município, e cobrem de 1º de janeiro de 2021 a 17 de julho de 2026, somando a Prefeitura e suas autarquias.
Para você sentir o tamanho: R$ 9,14 milhões equivalem a mais de 1,8 milhão de marmitas a R$ 5 cada. Isso não quer dizer que o dinheiro poderia ser automaticamente transferido para outra despesa; é apenas uma comparação de escala. O que os documentos mostram é quanto o Executivo pagou nesse conjunto de coffee break, buffet, lanche, refeição e quentinha.
O gasto não cresceu. Ele explodiu.
Se fosse uma conta estável, seria uma coisa. Mas não é. Olhe o que aconteceu ano a ano:
| Ano | Empenhado (reservado) | Pago |
|---|---|---|
| 2021 | R$ 89.398,71 | R$ 89.398,71 |
| 2022 | R$ 1.084.164,38 | R$ 1.084.164,38 |
| 2023 | R$ 2.157.549,63 | R$ 1.676.071,51 |
| 2024 | R$ 2.473.520,16 | R$ 2.417.241,12 |
| 2025 | R$ 3.088.135,96 | R$ 3.088.135,96 |
| 2026, até 17/07 | R$ 1.455.048,54 | R$ 785.479,93 |
| Total | R$ 10.347.817,38 | R$ 9.140.491,61 |

Leia essa tabela devagar, porque ela conta uma história sozinha. Em 2021, esse recorte custou R$ 89 mil no ano inteiro. Em 2025, custou R$ 3,09 milhões — trinta e cinco vezes mais. E 2026 mal passou da metade e já tem R$ 1,46 milhão comprometido.
Trinta e cinco vezes. Em quatro anos. A cidade cresceu 35 vezes? Os eventos ficaram 35 vezes maiores? A pergunta não é retórica — é exatamente o que precisa de resposta.
Pare aqui 30 segundos: três palavras que separam a verdade da mentira
Antes de continuar, você precisa de três palavrinhas na cabeça. Elas parecem chatas, mas são a diferença entre uma manchete honesta e uma mentira. O dinheiro público, quando é gasto, passa por três estágios:
- Empenhado = a Prefeitura separou o dinheiro. É como quando você diz “vou gastar até R$ 500 no mercado”. Ainda não gastou nada. É só a promessa.
- Liquidado = a Prefeitura recebeu o serviço, conferiu e reconheceu: “isso aqui eu devo mesmo”.
- Pago = o sistema público registrou a despesa na fase paga.
Por que isso importa tanto? Porque é fácil — e desonesto — pegar o valor “empenhado” e gritar “a empresa embolsou R$ 10 milhões!”. Não embolsou. Reservado não é recebido. Nesta reportagem, quando dizemos que saiu dinheiro, usamos o pago: R$ 9,14 milhões. Quando dizemos o que foi comprometido, usamos o empenhado: R$ 10,35 milhões. Guarde essa régua — e cobre ela de qualquer um que te mostrar número de dinheiro público.
Quatro empresas. R$ 8,84 milhões só no recorte alimentar.
Aqui a história fica mais interessante. Esse dinheiro não se espalhou por dezenas de fornecedores da cidade. Ele se concentrou. Quatro empresas receberam R$ 8.835.452,00 dos R$ 9.140.491,61 do recorte alimentar — 96,7% do valor pago.
| Empresa | Recorte alimentar | Todos os objetos ao CNPJ |
|---|---|---|
| Casa Real Buffet e Eventos Ltda | R$ 4.224.659,70 | R$ 4.233.408,52 |
| Waléria Quirino de Queiroz Vasconcelos | R$ 3.543.471,60 | R$ 3.555.775,60 |
| Comedoria e Restaurante Garanhuns Ltda | R$ 899.302,70 | R$ 899.302,70 |
| Beatriz Diellany Andrade Sobral Elizeu | R$ 168.018,00 | R$ 174.693,45 |
| Total | R$ 8.835.452,00 | R$ 8.863.180,27 |

As duas colunas não são a mesma conta. A primeira soma apenas alimentação. A segunda atende a outra pergunta: quanto entrou, ao todo, nos quatro CNPJs por qualquer objeto pago pelo Executivo? A resposta é R$ 8.863.180,27. A diferença de R$ 27.728,27 inclui objetos que não são comida — entre eles, aluguel de cadeiras — e, por isso, não foi usada para inflar o total alimentar.
Só a Casa Real e a Waléria, juntas, receberam R$ 7,77 milhões no recorte alimentar. Duas empresas concentraram 85% de tudo o que o Executivo pagou nesse conjunto de despesas.
Isso, sozinho, não é ilegal — pode ser resultado de licitação, pode ser que poucas empresas na região se habilitem a servir comida em evento grande. Mas é uma foto que merece pergunta: numa cidade do tamanho de Garanhuns, por que duas empresas concentram tanto? Quantas outras disputaram? Quem perdeu?
O detalhe que ninguém explicou: os dois sistemas do governo brigam entre si
Agora o ponto mais estranho de toda a apuração — e aqui você precisa prestar atenção, porque é sutil e é grave ao mesmo tempo.
Cada um desses gastos é registrado em dois lugares oficiais. Um é o TCE, o Tribunal de Contas, que fiscaliza a Prefeitura de fora. O outro é o Portal da Transparência da própria Prefeitura. É como ter dois contadores anotando a mesma despesa. O normal é que, comparado o mesmo escopo, os dois cheguem ao mesmo número.
Só que, em vários casos, não chegam. E a diferença não é de centavos.
O caso mais escancarado é o da empresa Beatriz Diellany, no Festival Viva Jesus de 2024. O Tribunal de Contas registra que ela recebeu R$ 168.018,00. O site da própria Prefeitura registra, para o mesmo empenho, R$ 1.680,18.
Leia de novo. Cento e sessenta e oito mil, de um lado. Mil, seiscentos e oitenta, do outro. O valor de um é exatamente cem vezes o do outro. É a mesma despesa, os mesmos cofres, e dois sistemas oficiais do poder público contam histórias que diferem por um fator de cem.
E não é caso isolado. Na Comedoria, em 2025, o TCE e o site da Prefeitura divergem em R$ 439.917,64. Na Casa Real, a diferença é de R$ 170.963,67 em 2024 e R$ 160.055,72 em 2025, comparando o mesmo escopo da Prefeitura direta nas duas bases.
O que isso quer dizer? Pode ter explicação técnica — erro de digitação, atualização em momentos diferentes ou restos a pagar, quando uma despesa de um ano é quitada no seguinte. Tudo isso é possível. O que não é possível é tratar como equivalentes registros oficiais que mostram números diferentes sem explicar a divergência. A reportagem pediu essa explicação à Prefeitura.
📄 Confira os documentos do caso Beatriz
A primeira prova é a dispensa publicada no Diário Oficial. A segunda reproduz a linha do CSV oficial exportado do Portal da Transparência, com o valor pago de R$ 1.680,18.
⬇ Dispensa do Festival Viva Jesus⬇ Registro do Portal da Prefeitura
O que R$ 9,14 milhões desse recorte compraram
Os históricos oficiais de cada empenho, no TCE, dizem o que foi contratado. Não é o cardápio prato a prato — para isso seriam necessários todos os contratos e notas fiscais —, mas dá para ver o padrão. Entre os maiores pagamentos:
- Casa Real — R$ 869.942,80 em 2025, para coffee break, refeição/quentinha e lanche no 33º Festival de Inverno. Só isso: quase R$ 870 mil num evento.
- Waléria Quirino — R$ 690 mil em 2023, refeições e lanches para servidores durante festival; e R$ 656.011,80 em 2024, em coffee break, lanche e água mineral no 32º Festival de Inverno.
- Comedoria — R$ 300 mil em 2025, buffet livre, kits lanche e coffee break.
- Beatriz Diellany — R$ 168 mil em 2024, coffee break, jantar e lanche no Festival Viva Jesus, contratada por dispensa emergencial de licitação.
Repare no que se repete entre os maiores empenhos: Festival de Inverno e Secretaria de Cultura. O FIG é o cartão-postal da cidade, atrai gente do Brasil inteiro e é motivo de orgulho — ninguém discute isso. A pergunta é outra: dentro do festival, quanto do orçamento vira palco, artista e estrutura para o público, e quanto vira coffee break, refeição e quentinha de bastidor?
Como a Prefeitura contratou esse cafezinho todo
Aqui vale olhar não só quanto, mas como. Boa parte dessas contratações passou por licitação — a disputa pública em que empresas apresentam propostas e a administração julga preço e habilitação. Em dois episódios, um pregão não chegou à contratação e depois houve dispensa para a Waléria, que não era a vencedora do certame anterior. Acompanhe a cronologia, toda ela tirada das atas e do Diário Oficial:
- 2022. O Pregão 041/2022, estimado em R$ 1,24 milhão, teve apenas duas empresas na disputa e terminou fracassado. Dias depois, a Secretaria de Cultura contratou a Waléria Quirino diretamente, por dispensa de licitação, por R$ 696 mil. A Waléria não era uma das duas participantes daquele pregão.
- Ainda 2022. No Pregão 062/2022, uma única empresa apresentou proposta — a própria Waléria. A ata registra “participação de um único proponente”.
- 2024 — o capítulo mais chamativo. O Pregão 009/2024 foi aberto em 21 de junho, com sessão marcada para 9 de julho e 14 empresas cadastradas; a Waléria não aparece entre elas. O Festival de Inverno começaria em 11 de julho. E foi exatamente em 11 de julho que a Prefeitura assinou uma dispensa emergencial com a Waléria, por R$ 755.014,00. Seis dias depois, revogou o pregão, alegando “razões de interesse público”. A justificativa completa da revogação não foi localizada no portal de licitações da Prefeitura.
- 2024, de novo. A empresa Beatriz Diellany foi contratada também por dispensa emergencial para o Festival Viva Jesus, por R$ 168 mil.
- 2026. O Pregão 004/2026 teve 15 empresas cadastradas. Cinco apresentaram preço menor do que a Waléria — a Casa Real, a mais barata entre elas, ofereceu R$ 1,28 milhão. As cinco foram desclassificadas durante o julgamento por motivos registrados na ata, e a Waléria foi declarada vencedora por R$ 1,59 milhão — cerca de R$ 300 mil acima daquela proposta mais barata. Isso não significa que a Waléria apresentou o maior preço do pregão; houve também ofertas superiores à dela.
Há ainda documentos que não foram localizados nos portais consultados: o processo completo da emergência de 2024, a justificativa integral da revogação e as pesquisas de preço que sustentaram as contratações diretas.
Nada disso, isoladamente, é ilegal — a lei permite dispensa e revogação em situações específicas e justificadas, e uma proposta menor pode ser desclassificada se não cumprir as regras. Mas a sequência levanta perguntas que só a Prefeitura pode responder: por que contratar diretamente outra empresa logo depois de um pregão fracassado? Por que abrir um pregão com 14 concorrentes a menos de três semanas do festival, contratar por emergência uma empresa que não estava entre as cadastradas e revogar o certame seis dias depois? E quais falhas concretas levaram à eliminação das cinco propostas abaixo da vencedora em 2026?
📄 Leia as atas e publicações citadas
O Contraditório disponibiliza os documentos usados na cronologia para que o leitor possa conferir.
Pregão 041/2022Contrato direto de 2022Pregão 009/2024Dispensa de 2024Revogação de 2024Pregão 004/2026
O outro lado
A reportagem protocolou, em 18 de julho de 2026, pedido formal pela Lei de Acesso à Informação junto à Prefeitura de Garanhuns, sob o nº 20260718110825/10726, solicitando contratos, dispensas, empenhos e pagamentos das quatro empresas entre 2021 e 2026. Também encaminhou perguntas, por e-mail, à Secretaria de Comunicação e à Secretaria de Cultura, sobre os critérios das contratações, a revogação do Pregão 009/2024 e as diferenças entre as bases oficiais.
Até o fechamento deste rascunho, não houve resposta da administração. O espaço permanece aberto, e a manifestação será incorporada assim que chegar.
No fim das contas, o que os números dizem — e o que não dizem
Os dados são públicos, oficiais e qualquer pessoa pode conferir. Eles mostram três coisas, com todas as letras: um gasto alto e crescendo rápido com alimentação em eventos e ações oficiais; quatro empresas concentrando 96,7% do recorte; e os próprios sistemas do poder público divergindo entre si sem explicação disponível até o fechamento.
Eles não mostram crime, desvio ou superfaturamento — e quem afirmar isso sem documento na mão está inventando, não fazendo jornalismo. Nós não temos esse documento. O que temos é a foto, e a foto é motivo legítimo de pergunta.
E a pergunta, no fundo, é sua, que paga imposto e pega a fila do posto: R$ 9,14 milhões em coffee break, buffet, lanche, refeição e quentinha, numa só administração, numa cidade cheia de urgência. Essa é a prioridade? A resposta a gente ainda vai cobrar. Mas a pergunta, agora, você já não desconhece.
Como apuramos
O Contraditório consultou os Dados Abertos do TCE-PE, reuniu os objetos ligados a coffee break, lanche, refeição, quentinha, buffet e fornecimento de alimentação e revisou individualmente os resultados, ano a ano, de 2021 a 2026. O número principal abrange Prefeitura, AMSTT, IPSG e AESGA. Nove registros claramente alheios ao recorte — como material gráfico, combustível, locação de veículo e sacos para cachorro-quente — foram retirados.
Contratos mistos foram mantidos quando o próprio objeto oficial incluía alimentação e a base não permitia separar o preço de cada componente: um deles reuniu auditório e buffet, com R$ 16.160,00 pagos; outro reuniu transporte de 65 pessoas, refeições, água, seguro e guia, com R$ 15.700,00 empenhados e nenhum valor pago. Portanto, esse segundo caso não era transporte de comida nem aumentou o total pago.
A reportagem cruzou o resultado com os relatórios exportados do Portal da Transparência da Prefeitura, conferiu atos no Diário Oficial/AMUPE e consultou documentos de licitações no PNCP e nos processos locais. Ficaram fora do número principal merenda escolar/PNAE, compra de cesta básica, gêneros alimentícios sem objeto específico de lanche ou refeição e auxílio-alimentação de servidor. Os valores da Câmara Municipal e de órgãos fora do Executivo também não entram.
Glossário rápido
- Empenhado: dinheiro reservado no orçamento. Ainda não saiu.
- Liquidado: a administração registra que recebeu o serviço e reconheceu a dívida.
- Pago: despesa registrada na fase paga.
- Restos a pagar: despesa de um ano paga no ano seguinte.
- Dispensa de licitação: contratação direta, sem a concorrência completa, permitida por lei em casos específicos.





