Terça-feira, 1 de setembro de 2026
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Pernambuco

Do Blog do Magno à Prefeitura: a trilha dos perfis pró-João

Decisões do TRE-PE identificaram Pedro Leitão, servidor atual da articulação política municipal, e Tarcísio Montenegro, ex-secretário da área e atual secretário-geral do PSB de Pernambuco, como responsáveis por dois perfis pró-João. As contas aparecem na distribuição de um cenário que saiu do Blog do Magno, passou pelo João Campos Platinado e não consta da pesquisa.

Do Blog do Magno à Prefeitura: a trilha dos perfis pró-João
Montagem editorial: O Contraditório.

O que os documentos mostram

A Justiça Eleitoral já tirou duas contas desta história do anonimato. Uma chegou a Pedro Henrique Monteiro Leitão, servidor atual da articulação política da Prefeitura do Recife. A outra chegou a Tarcísio Montenegro Amaral Ribeiro, ex-secretário executivo da mesma área na gestão João Campos e atual secretário-geral do diretório estadual do PSB.

O que esta investigação mostra é direto: a distribuição de conteúdo pró-João contra Raquel não ficou restrita a admiradores sem nome. A Justiça encontrou responsáveis, e os atos oficiais levaram dois deles ao núcleo de articulação política da gestão municipal — um ainda no cargo; o outro exonerado, a pedido, desde 7 de maio de 2026.

Depois de receber informações da Meta, o juízo colocou Pedro no lugar de @pernambuco40_joaocampos. Os atos municipais mostram que ele está na Prefeitura desde janeiro de 2021 e ocupa hoje o cargo de gestor técnico de articulação da Secretaria de Articulação Política e Social.

Em outro processo, o TRE-PE registrou que @tarcisioribeiro40 já tinha responsável identificado. Tarcísio compareceu voluntariamente, entrou no lugar da conta e foi citado. Ele havia deixado, três meses antes da publicação examinada, o cargo de secretário executivo de Relações Municipais da gestão João Campos. Mas não havia deixado a direção do PSB: uma certidão oficial da Justiça Eleitoral o mantém ativo como secretário-geral do partido em Pernambuco.

Esta reportagem abre uma série que O Contraditório apresenta hoje sobre os perfis pró-João que atacam Raquel Lyra e o ecossistema que os documentos revelam ao redor deles. Operadores, defesa jurídica, agências, contratos de publicidade e dinheiro público serão abertos em núcleos separados. Cada matéria mostrará uma peça. Juntas, elas mostrarão até onde esses elos chegam — e quem precisa responder por eles.

Às 17h30, na segunda reportagem: o mesmo advogado aparece em processos de ao menos nove dos 18 nomes citados na notícia-crime ou de seus perfis individualizados. A próxima matéria mostra o vínculo público desse profissional e pergunta quem contratou e pagou as defesas.

Os perfis atribuídos a Pedro e Tarcísio aparecem na mesma decisão sobre uma publicação colaborativa. Não eram apenas postagens parecidas. O ato judicial registra as duas contas entre os participantes da distribuição do mesmo conteúdo.

Segundo a decisão de urgência, esse conteúdo foi divulgado primeiro pelo Blog do Magno, reproduzido pelo João Campos Platinado e, depois, distribuído pelas contas colaboradoras.

No meio do caminho estava Wladimir Quirino, administrador reconhecido do Platinado. Em três decisões sobre outros conteúdos contra Raquel, ele recebeu multas de R$ 5 mil, R$ 10 mil e R$ 15 mil.

E o que toda essa rede distribuía? Um confronto de 48% a 43% entre João e Raquel que não constava do questionário da pesquisa.

Os documentos não provam uma rede oficial. Mostram que ao menos parte desse circuito não era anônima nem distante da estrutura política municipal.

O confronto que a pesquisa não mediu

Em 14 de agosto, o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco mandou retirar das redes uma comparação que mostrava João Campos com 48% e Raquel Lyra com 43% na corrida pelo Governo do Estado.

O problema cabe em duas frases.

Os números existiam. Aquela disputa, não.

A pesquisa Múltipla havia perguntado em quem o eleitor votaria. Nesse cenário, Raquel aparecia com 45% e João com 41%. Em outra pergunta, 48% disseram preferir que o futuro governador fosse aliado do presidente Lula.

A publicação pegou o número de uma pergunta e o apresentou como se fosse intenção de voto em João. A própria decisão explica que o percentual era verdadeiro na origem, mas ganhou outro significado quando foi colocado no confronto “João 48% x Raquel 43%”. A pesquisa não havia medido esse cenário.

Segundo a decisão de urgência, a informação foi divulgada primeiro pelo Blog do Magno. Depois, apareceu no João Campos Platinado e em publicações colaborativas de @soumaisjoaocampos, @sejadeesquerda2, @pernambuco40joaocampos, @pecomjoaocampos, @tarcisioribeiro40 e @jptpernambuco.

O Blog do Magno não aparece no processo como alguém que apenas comentou uma postagem alheia. A decisão registra o blog como ponto inicial daquela cadeia, manda retirar o endereço da matéria e determina a citação de Magno Martins e da empresa Blog do Magno Martins Comunicação Ltda., além dos demais representados já identificados.

Foi uma decisão preliminar, não uma condenação final. Mas a sequência registrada é objetiva: Blog do Magno, João Campos Platinado, rede de colaborações.

A informação não nasceu numa página escondida. Partiu de um dos blogs políticos mais conhecidos de Pernambuco e ganhou a aparência de resultado de pesquisa antes de circular entre perfis pró-João.

No Instagram, publicação colaborativa não é apenas alguém copiar uma imagem horas depois. As contas entram no mesmo post e o conteúdo é exibido também ao público de cada colaborador. Foi assim que uma comparação inexistente ganhou várias portas de entrada — e foi assim que Pedro e Tarcísio apareceram na mesma trilha.

O amplificador já tinha nome — e três decisões

João Campos Platinado aparece no meio da sequência registrada pelo TRE-PE: reproduziu o conteúdo depois do Blog do Magno, antes de ele aparecer nas publicações colaborativas.

Esse perfil também deixou de ser apenas um nome na tela.

Três decisões eleitorais diferentes atribuíram a Wladimir Quirino conteúdos publicados pelo João Campos Platinado. As multas subiram de R$ 5 mil para R$ 10 mil e R$ 15 mil. Na terceira decisão, o próprio juízo citou as duas anteriores e registrou reiteração de condutas da mesma natureza.

O leitor precisa saber o que havia nesses processos.

No primeiro, o perfil usou imagens de um feminicídio real ocorrido em Gravatá, acrescentou edição dramática e textos para construir uma associação política contra Raquel Lyra. O Pleno do TRE-PE manteve por unanimidade a remoção e a multa de R$ 5 mil. O acórdão registra Wladimir como administrador efetivo do perfil e produtor do conteúdo.

No segundo, a Justiça examinou dois vídeos. Um trazia o refrão “Raquel Lyra fuleirou”. Outro fazia acusação de favorecimento à empresa Caruaruense. A decisão apontou uso de conteúdo sintético sem identificação e fixou multa de R$ 10 mil.

No terceiro, quatro vídeos editados miravam Daniel Coelho e Raquel Lyra. A Justiça determinou remoção, preservação de registros e multa de R$ 15 mil. Foi nesse processo que apareceu a referência expressa à repetição de condutas.

As três multas pertencem a processos diferentes. Não são condenações pelo caso dos 48% a 43%. Elas mostram por que o Platinado não pode ser apresentado como página ocasional de admiradores: havia um administrador reconhecido, produção recorrente e um histórico judicial de conteúdos contra Raquel.

No mesmo conjunto de autos, a Justiça afastou a responsabilidade de Rosineide Maria da Silva. O endereço digital inicialmente associado a ela não correspondia ao registro depois vinculado pela operadora, e o Tribunal considerou insuficiente o elo cadastral. Em petição reproduzida na decisão, o próprio Wladimir declarou ser o único responsável e administrador da conta.

A correção diz duas coisas ao mesmo tempo. Rosineide não pode ser apresentada como operadora. Wladimir pode ser apresentado como o administrador reconhecido nos autos.

📄 Abra os documentos da Justiça Eleitoral

Caderno público de 56 páginas com os trechos integrais dos processos sobre a comparação da pesquisa, a identificação dos perfis e as três decisões relacionadas a Wladimir. Inclui páginas de origem e SHA-256.

⬇ Baixar os documentos do TRE-PE (PDF)

Tarcísio: do governo Paulo Câmara à direção do PSB

No processo 0600317-58.2026.6.17.0000, o TRE-PE registrou que o responsável por @tarcisioribeiro40 já havia sido identificado. Tarcísio Montenegro Amaral Ribeiro compareceu voluntariamente, teve o nome incluído no lugar do perfil e foi citado.

Para quem não acompanha a política de Pernambuco, a lista de cargos dele pode parecer apenas burocracia. Não é.

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Em 2015, Tarcísio era gerente-geral da Casa Civil de Pernambuco. Em 2017, tornou-se secretário executivo de Relações Institucionais. Em 2019, apareceu como secretário executivo de Articulação Social da Secretaria de Infraestrutura e Recursos Hídricos.

Os três cargos foram exercidos no governo Paulo Câmara, do PSB.

O próximo ato oficial recuperado já é da Prefeitura do Recife. João Campos, também do PSB, havia acabado de assumir. Tarcísio foi nomeado secretário executivo de Articulação Política com efeito em 1º de janeiro de 2021, o primeiro dia da nova gestão.

Os dois governos eram do PSB.

Dias depois, Tarcísio recebeu poderes para ordenar despesas, assinar empenhos, realizar pagamentos e movimentar contas da Secretaria de Governo e Participação Social. Isso não prova que um centavo tenha chegado ao perfil. Mostra o tamanho da função: não era um apoiador distante nem um cargo lateral.

📄 Confira a trajetória funcional de Tarcísio

Compilação pública dos atos estaduais e municipais de 2015 a 2026, inclusive nomeações, mudança de secretaria e exoneração. Cada página vem identificada com arquivo de origem e hash.

⬇ Baixar os atos funcionais (PDF)

Em agosto de 2023, Tarcísio deixou a Secretaria Executiva de Articulação Política e, na mesma data, assumiu a Secretaria Executiva de Relações Municipais na Assessoria Especial e Representação Institucional. Um ato de 2025 confirma que continuava titular. Foi exonerado, a pedido, em 7 de maio de 2026.

Sair da Prefeitura não significou sair do núcleo do PSB. A certidão de composição partidária emitida pelo sistema oficial da Justiça Eleitoral lista Tarcísio como membro titular e secretário-geral do diretório estadual do partido, com situação ativa de 30 de julho de 2025 a 29 de julho de 2028.

📄 Leia a certidão completa do PSB de Pernambuco

Documento emitido pelo sistema oficial da Justiça Eleitoral com a composição do diretório estadual do PSB para o período de 2025 a 2028.

⬇ Baixar a certidão do TSE/SGIP (PDF)

Quando a comparação da pesquisa circulou, em agosto, Tarcísio já estava fora da Prefeitura havia cerca de três meses. A precisão importa: o vínculo funcional não era atual. O vínculo partidário era. A conta identificada pela Justiça chega ao secretário-geral ativo do PSB de Pernambuco, depois de uma trajetória que passou pela articulação do governo Paulo Câmara e continuou por cinco anos na articulação da gestão João Campos.

Não é um currículo de comunicação digital. É um currículo de articulação política — dentro de governos do PSB e, agora, dentro da própria direção estadual do partido.

Pedro: a conta chega a um servidor atual

O processo 0600234-42.2026.6.17.0000 começou com o nome de um perfil no lugar de uma pessoa. A Justiça pediu informações à Meta, responsável pelo Instagram. Depois da resposta da plataforma, o juízo registrou Pedro Henrique Monteiro Leitão como responsável por @pernambuco40_joaocampos, colocou o nome dele no processo e determinou sua citação.

O Diário da Justiça registra o nome da conta com e sem sublinhado. A grafia sem sublinhado aparece na decisão da publicação colaborativa e também em edição que identifica Pedro como responsável. O ID técnico fornecido pela Meta ainda não está disponível no processo público.

Pedro não aparece apenas numa conta dedicada a João Campos.

Ele aparece também nos atos da Prefeitura.

Foi nomeado gestor da Unidade de Análise de Informações da Secretaria de Governo e Participação Social com efeito em 1º de janeiro de 2021. Em maio de 2026, passou a gestor técnico de articulação da Secretaria de Articulação Política e Social.

Traduzindo o nome burocrático: articulação política é a área que cuida da relação do governo com atores políticos e sociais. Não é um balcão neutro de serviços internos. É uma função no coração da conversa política da gestão.

O primeiro ato municipal recuperado coloca Pedro na Prefeitura desde o primeiro dia do governo João. O ato mais recente o mantém na área política. Entre uma ponta e outra, a Justiça o identifica com uma conta pró-João que participou da distribuição retirada do ar.

📄 Confira os atos funcionais de Pedro Leitão

Páginas dos Diários Oficiais do Recife que registram a entrada de Pedro na Prefeitura em 2021 e sua função na articulação política em 2026.

⬇ Baixar os atos da Prefeitura (PDF)

Essa é uma cadeia documental entre pessoa, conta, cargo e publicação.

O que fica — e a pergunta que volta para João

Em vídeo público, João Campos afirmou que os ataques contra ele envolveriam pessoas, comando político e dinheiro público.

Quando a Justiça examinou uma publicação pró-João contra Raquel, os autos registraram uma sequência que começou no Blog do Magno, passou pelo João Campos Platinado e chegou a colaborações de contas ligadas a um servidor atual e a um ex-secretário da articulação política do Recife.

Uma dessas pessoas continua no governo municipal. A outra ocupou duas secretarias executivas na gestão João Campos, deixou a Prefeitura três meses antes da publicação examinada e permanece como secretário-geral ativo do PSB estadual.

O documento que liga João diretamente ao comando ainda não apareceu. Ainda assim, os vínculos documentados afastam a leitura de que todo o circuito era formado apenas por apoiadores anônimos e distantes da gestão.

Prefeitura, campanha e PSB precisam dizer se conheciam as contas, se recebiam ou redistribuíam seus materiais e se algum servidor atuou para elas com orientação, estrutura ou remuneração externa. Pedro e Tarcísio precisam explicar se produziam sozinhos, em grupo ou para algum contratante. Magno precisa explicar como recebeu e construiu o confronto que a pesquisa não mediu. Wladimir precisa explicar quem abastecia o Platinado e se agia sozinho.

A Justiça já encontrou nomes. O próximo documento precisa mostrar o comando e o dinheiro.

Às 17h30: o advogado que converge nessas defesas também ocupa cargo comissionado em gabinete de vereador do PSB. Os documentos provam a concentração; a próxima reportagem vai atrás do contratante e do pagador.

Como apuramos

Esta apuração começou pelas edições integrais do Diário da Justiça Eletrônico do TRE-PE. Separamos alegação de partido, decisão preliminar, identificação processual e julgamento de mérito. Foi assim que a lista de 18 nomes deixou de ser tratada como autoria reconhecida e que a responsabilidade atribuída a Rosineide foi corrigida.

Depois, abrimos os atos do Recife e do Governo de Pernambuco. Conferimos nome, cargo, órgão e data. A trajetória estadual de Tarcísio foi cruzada com a gestão Paulo Câmara, do PSB. A entrada dele e de Pedro na Prefeitura foi cruzada com o primeiro dia da gestão João Campos, também do PSB. A função partidária atual de Tarcísio foi confirmada numa certidão de composição do diretório estadual emitida pelo sistema oficial da Justiça Eleitoral.

Na parte financeira, abrimos contas anuais do TSE, notas fiscais partidárias, prestações de campanha e relatórios de publicidade. Mantivemos separado o que foi contratado, empenhado, liquidado e pago. Também procuramos seis CNPJs no TCE-PE, ano por ano, e revisamos 516 arquivos oficiais.

Todos os documentos, planilhas, capturas e relatórios usados foram preservados na pasta da matéria. Cada arquivo recebeu SHA-256 — uma impressão digital que muda se o conteúdo for alterado. O manifesto da última busca financeira tem 70 entradas e foi rechecado sem divergência.

O Mural Eletrônico e a consulta completa do PJe exigiram verificação humana em parte das buscas. Não contornamos essa barreira. Por isso, a resposta integral da Meta e os julgamentos finais ainda não localizados continuam classificados como pendências, não como documentos inexistentes.

Fontes principais

  • Diário da Justiça Eletrônico do TRE-PE: processos 0600234-42, 0600317-58, 0601400-12, 0600135-72, 0600105-37, 0600058-63 e 0600709-95.
  • Diário Oficial do Recife: atos funcionais de Pedro Leitão e Tarcísio Montenegro publicados entre 2021 e 2026.
  • Boletins oficiais da SDS-PE e Diário Oficial da Alepe: trajetória funcional de Tarcísio entre 2015 e 2019.
  • Assembleia Legislativa de Pernambuco: posse de Paulo Câmara como governador do PSB em 2015.
  • Tribunal Superior Eleitoral: eleição de João Campos pelo PSB em 2020; contas anuais partidárias, notas fiscais e prestações eleitorais.
  • Sistema de Gerenciamento de Informações Partidárias da Justiça Eleitoral: certidão completa do diretório estadual do PSB de Pernambuco, com Tarcísio Montenegro como secretário-geral ativo.
  • Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco: consultas de despesas municipais por CNPJ e exercício.
  • Relatórios de publicidade institucional do Recife preservados no dossiê.
  • Vídeo público de João Campos de 26 de agosto de 2026 e reportagens que preservaram sua acusação sobre o suposto “gabinete do ódio”.
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