Sexta-feira, 18 de setembro de 2026
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Política

Caso Master: Pedro Campos, do PSB, deu aval à pressa para mudar regras do BC

O PSB do Distrito Federal contestou a compra do Master. Na Câmara, Pedro Campos apoiou o pedido para acelerar a votação de um projeto que daria ao Congresso mais poder para afastar dirigentes do Banco Central, responsável por autorizar o negócio. No dia seguinte à apresentação desse pedido, uma das autoras, também do PSB, pediu a retirada do projeto.

Caso Master: Pedro Campos, do PSB, deu aval à pressa para mudar regras do BC

O Banco Central tinha nas mãos a decisão sobre a compra do Banco Master pelo BRB, banco público do Distrito Federal. Na véspera do anúncio de que o negócio havia sido barrado, chegou à Câmara um pedido para apressar a votação de uma mudança nas regras de afastamento da direção do BC.

Entre os apoiadores estava Pedro Campos, então líder do PSB na Câmara.

No dia seguinte à apresentação do pedido, Lídice da Mata, também do PSB e uma das autoras do projeto, pediu sua retirada. Depois, outro autor explicou o motivo: estavam usando a proposta fora do contexto em que ela havia sido criada.

O que os documentos mostram é um desencontro dentro do próprio partido. A liderança apoiou a pressa. Os autores pediram a retirada. E o projeto mexia justamente com as regras de afastamento da direção do órgão responsável por autorizar aquela compra.

O apoio tinha o peso da liderança

O requerimento — nome dado ao pedido formal — foi apresentado em 2 de setembro de 2025 por Claudio Cajado, do PP. Pedia urgência: um caminho mais curto até a votação, com menos etapas de discussão.

Pedro aparece no registro oficial como apoiador e líder do PSB. Nessa modalidade, o apoio contava pelo tamanho da bancada representada. Não era apenas mais um nome na lista. Também não significa que cada deputado do partido tenha assinado ou votado.

Líderes de MDB, PP, União Brasil, PL e Republicanos também aderiram. Foi nessa articulação que Pedro colocou o apoio da liderança do PSB.

📄 Confira o requerimento de urgência

Documento oficial da Câmara com os apoiadores, entre eles Pedro Campos como líder do PSB.

⬇ Ler o requerimento (PDF)

O projeto era anterior ao caso Master. Havia sido apresentado em 2021 por Camilo Capiberibe, Lídice da Mata e Bira do Pindaré, todos do PSB naquele documento. Pedro não era seu autor. O texto não citava o Master nem o BRB.

📄 Leia o projeto original

A proposta de 2021 e a nova regra que pretendia criar para afastar dirigentes do Banco Central.

⬇ Ler o projeto (PDF)

Por que isso importava para o Master

A compra dependia da autorização do Banco Central. O projeto abriria um novo caminho para tirar do cargo o presidente e os diretores da instituição.

Funcionaria assim: a Câmara poderia propor o afastamento caso considerasse a atuação deles incompatível com os interesses nacionais. Seria necessário o apoio de mais da metade dos integrantes da Câmara e, depois, mais da metade dos integrantes do Senado. A saída formal continuaria a cargo do presidente da República.

A lei já permite afastar dirigentes do BC. Quando o motivo é desempenho comprovadamente insuficiente e repetido, por exemplo, o procedimento passa pelo Conselho Monetário Nacional — órgão que define as principais diretrizes financeiras do país —, pela Presidência da República e pelo Senado.

A mudança, portanto, não era simplesmente permitir fiscalização. Era dar aos parlamentares mais poder sobre a permanência da direção do BC.

Esse poder também pode virar pressão: a direção do BC ficaria mais exposta à reação de parlamentares insatisfeitos com suas decisões. E o pedido para apressar essa mudança chegou no momento em que o BC decidia se o negócio com o Master poderia seguir.

A relação com a compra apareceu na cobertura da época. Em reportagem de Célia Froufe, o Broadcast relatou que a iniciativa fora interpretada como pressão do Centrão pela aprovação do negócio. Essa era a leitura do movimento político, não uma conclusão sobre a intenção pessoal de cada apoiador.

Os autores pediram para parar

Em 3 de setembro de 2025, foi anunciada a rejeição da compra. Na mesma data, Lídice da Mata apresentou o pedido de retirada do projeto.

Lídice agiu como uma das autoras, não como relatora. O requerimento dela está no sistema da Câmara.

📄 Veja o pedido de retirada

Pedido de Lídice da Mata para retirar o projeto. O registro examinado não mostra que tenha sido atendido.

⬇ Ler o pedido (PDF)

Uma semana depois, Capiberibe disse ao Broadcast que a decisão de pedir a retirada havia sido tomada pelos três autores. Segundo ele, o projeto sofrera “descontextualização” e “instrumentalização”. Em português claro: estavam usando uma proposta antiga fora do contexto original, para servir a outro objetivo.

A explicação não veio de um adversário do PSB. Veio de um dos autores do próprio partido.

É esse contraste que pesa sobre Pedro: a liderança ajudou a pedir pressa para um texto cujo uso seus autores rejeitaram. Qual foi a avaliação feita antes de dar esse apoio? Os autores foram consultados?

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O pedido de retirada, porém, não aparece como atendido nos andamentos examinados até esta revisão. O projeto continuava à espera de relator; o pedido de urgência, pronto para entrar na pauta. Não encontramos registro de aprovação da urgência.

O que Pedro respondeu

Pedro já deu uma explicação à imprensa. Em reportagem do Estadão, reproduzida pelo Jornal de Brasília em fevereiro de 2026, afirmou que, como líder, apoiava os pedidos de urgência de projetos do PSB. Disse também que o partido denunciara irregularidades na compra e defendera uma CPI.

A oposição à compra tem registro. Em abril de 2025, meses antes do pedido de urgência, o PSB do Distrito Federal apresentou uma representação contra o negócio, noticiada pelo Poder360. Naquele período, o Ministério Público do DF anunciou a abertura de uma investigação civil por iniciativa própria.

Pedro também aparece entre os apoiadores da CPI proposta por Rodrigo Rollemberg para investigar as relações entre Master e BRB. CPI é uma comissão de deputados com poderes para investigar um assunto determinado.

📄 Confira o apoio à CPI

Conferência de assinaturas da Câmara: Pedro Campos consta entre os apoiadores.

⬇ Ler a conferência (PDF)

Em maio de 2026, o próprio Pedro pediu a criação de outro grupo de fiscalização na Câmara. Dessa vez, uma subcomissão para acompanhar os órgãos que regulam e supervisionam o sistema financeiro, especialmente o Banco Central. A justificativa cita o caso Master. É uma proposta diferente tanto da CPI quanto da mudança nas regras de afastamento.

📄 Leia a proposta posterior de subcomissão

Requerimento de Pedro Campos, de maio de 2026, para fiscalizar órgãos de regulação e supervisão financeira.

⬇ Ler o documento (PDF)

Esses atos mostram que o PSB não teve uma posição única a favor do negócio. O diretório do Distrito Federal se opôs à compra; Pedro apoiou sua investigação. A cobrança desta matéria é outra: por que a liderança apoiou acelerar aquela mudança no BC, naquele momento, se os próprios autores consideraram que estavam usando o projeto para outro fim?

Dizer que o apoio fazia parte da rotina informa como a liderança costumava agir. Não explica se alguém examinou o contexto antes de autorizar a pressa. Rotina partidária não dispensa responsabilidade pela decisão.

E João Campos?

Pedro é irmão de João Campos, candidato do PSB ao governo de Pernambuco. João também preside nacionalmente o partido desde junho de 2025, antes do pedido de urgência.

O parentesco identifica os dois. O cargo dá motivo para cobrar uma explicação da direção nacional: o apoio seguia uma orientação do partido? A presidência foi consultada?

Os documentos examinados não mostram que João tenha sabido, autorizado ou comandado esse apoio. A pergunta cabe a ele como presidente do PSB, não por uma responsabilidade automática pelo que o irmão fez.

Entenda sem juridiquês

Há três decisões diferentes nesta história. Apoiar a urgência é apoiar a pressa para votar. Aprovar o projeto seria uma etapa posterior, para mudar a lei. Autorizar a compra do Master era uma decisão do Banco Central, não daquele requerimento.

O aval documentado de Pedro foi ao pedido de urgência. É esse ato que está em discussão aqui.

Também são diferentes barrar a compra e fechar o banco. O negócio foi rejeitado em setembro. A liquidação do Master — o encerramento de suas atividades sob condução de um responsável nomeado pelo BC — só foi decretada em novembro de 2025.

O que fica

Para cobrar Pedro, não é preciso atribuir a ele uma fraude. Os documentos reunidos não demonstram negociação com Daniel Vorcaro, recebimento de vantagem ou participação em crime. Demonstram um ato parlamentar pelo qual ele pode ser cobrado.

A explicação que falta é sobre a decisão: quem pediu o apoio da liderança, qual justificativa apresentou e como Pedro reagiu quando os autores pediram a retirada?

O PSB precisa explicar o desencontro entre sua liderança e os autores da proposta. Pedro precisa explicar sua escolha. A urgência pode encurtar o debate. Não encurta a responsabilidade de quem a apoia.

Como apuramos

Lemos os pedidos de urgência e de retirada, o projeto original e os registros de apoio na Câmara. Conferimos também os andamentos públicos, o requerimento de CPI e a proposta posterior de fiscalização apresentada por Pedro. As cópias dos documentos estão reunidas com esta reportagem.

A data usada para o pedido de urgência é a de sua apresentação. O sistema confirma o apoio de Pedro por autorização eletrônica, mas não informa quando, individualmente, ele foi registrado.

A explicação dos autores vem da entrevista de Capiberibe ao Broadcast. A resposta de Pedro vem da reportagem do Estadão reproduzida pelo Jornal de Brasília. Conferimos ainda a oposição do PSB/DF à compra, a nota do Ministério Público, os registros do BRB e do BC, a posse de João na presidência do partido e sua candidatura no TSE.

O Contraditório ainda não enviou suas próprias perguntas aos envolvidos. A resposta atribuída a Pedro é a que ele deu à imprensa, não uma resposta à nossa reportagem. Não há recusa de resposta a registrar.

Fontes principais


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