A bet que patrocinou a empresa de Carreras também patrocinou o Festival de Inverno de Garanhuns
Esportes da Sorte aparece nos eventos da Festa Cheia, produtora da qual o deputado era sócio, e no 33º FIG da gestão Sivaldo Albino. Carreras relatava a CPI que discutia o mercado das apostas; no plenário, deputados cobraram explicações sobre o possível conflito.

O que os documentos mostram: a Esportes da Sorte patrocinou o Recife Trap, evento produzido pela Festa Cheia, empresa da qual Felipe Carreras era sócio. Em 2025, a mesma bet patrocinou o 33º Festival de Inverno de Garanhuns, realizado pela Prefeitura de Sivaldo Albino.
Carreras era o relator da CPI da Manipulação do Futebol, que discutia as regras e os negócios das apostas esportivas. Carreras e Sivaldo são aliados políticos em Pernambuco. A marca que patrocinava eventos da empresa de Carreras também financiou o principal festival da cidade administrada por Sivaldo.
Quem negociou esse patrocínio? Quem autorizou? Quanto foi pago? A Prefeitura não informou. A documentação não mostra que Carreras tenha participado do contrato, que Sivaldo tenha intermediado o negócio ou que tenha havido crime — mas mostra uma conexão que merece explicação pública.
A empresa de Carreras
A Folha de S.Paulo identificou duas empresas ligadas ao deputado: Festa Cheia Produções e Propagandas e Festa Cheia Eventos Ltda. A reportagem informou que as duas eram sediadas no Recife e atuavam na organização de feiras, congressos, exposições e festas.
A consulta cadastral da Festa Cheia Produções e Propagandas, CNPJ 06.179.652/0001-11, informa situação ativa, abertura em 22 de março de 2004 e capital social de R$ 50 mil. Felipe Augusto Lyra Carreras aparece como sócio desde a abertura. Augusto Diniz Acioli Lins aparece como sócio-administrador; Gisele Amorim Gonçalves, como administradora.
A Junta Comercial de Pernambuco registra o NIRE 26201443815 para essa empresa e distingue uma filial em Olinda, CNPJ 06.179.652/0002-00, vinculada ao mesmo NIRE da matriz.
O segundo CNPJ é 43.550.509/0001-10, da Festa Cheia Eventos Ltda. O registro da Jucepe informa o NIRE 26202725776, abertura em 16 de setembro de 2021, capital social de R$ 400 mil e situação cadastral baixada em 3 de abril de 2023 por encerramento e liquidação voluntária. Carreras aparece como sócio; Augusto Acioli, como sócio-administrador.
A consulta registral informa quem aparece no quadro cadastral, mas não informa percentuais de quotas. A reportagem do Metrópoles atribuiu a Carreras 50% da Festa Cheia Produções, com os outros 50% para Augusto Acioli. Esse percentual não pode ser transferido automaticamente para a Festa Cheia Eventos.
Bets dentro da Festa Cheia
A reportagem original da Folha listou os eventos patrocinados por casas de apostas. A PixBet patrocinou Quarentinha, Roupa Nova, Belo in Concert, Olinda Beer e “Irmãos — A Live Virou Tour”. A Esportes da Sorte patrocinou o Recife Trap. A Aposta Ganha patrocinou o Camarote Exclusive do São João de Caruaru.
Carreras disse à Folha que estava licenciado da direção e que era difícil existir, naquele momento, um grande evento sem patrocínio de bets.
O dinheiro não é um detalhe lateral. Segundo reportagem do Metrópoles baseada em balanços que a coluna afirma ter consultado na Jucepe, a Festa Cheia teve receita de R$ 8,3 milhões e resultado líquido de R$ 6.365.198,85 em 2022. O balanço reproduzido na matéria registra distribuição de R$ 4.230.743,00: R$ 3.035.210,00 para Carreras e R$ 1.195.533,00 para Augusto Acioli.
Em 2023, a empresa teria faturado R$ 20,2 milhões, com resultado de aproximadamente R$ 15 milhões e distribuição de R$ 14,9 milhões em dividendos. A reportagem atribuiu aproximadamente R$ 7,5 milhões a Carreras.
Os documentos integrais dos balanços não foram disponibilizados na matéria. Os números são apresentados aqui como informação publicada pelo Metrópoles a partir dos documentos que a coluna diz ter consultado.
A mesma bet no Festival de Inverno
O site oficial da Prefeitura de Garanhuns publicou, em agosto de 2025, o balanço do 33º Festival de Inverno. O texto atribui a realização à Prefeitura, por meio da Secretaria de Cultura, e lista entre os patrocinadores a Esportes da Sorte, o Banco do Nordeste e o Governo de Pernambuco.
Na declaração reproduzida pela Prefeitura, Sivaldo Albino agradece os patrocinadores e cita “Governo do Estado, Banco do Nordeste | Governo Federal, Esportes da Sorte e Boticário”. O crédito institucional da publicação registra o patrocínio da Esportes da Sorte, do Banco do Nordeste e do Governo de Pernambuco.
Não há, nessa publicação oficial, valor da cota, contrato, modalidade de escolha ou informação de que Carreras tenha participado da negociação. Também não há menção a Felipe Carreras no texto do balanço.
O vínculo político, contudo, não é uma invenção. Sivaldo Albino e Carreras são do PSB. Material audiovisual preservado da apuração do FIG mostra Carreras ao lado do prefeito no camarim durante a programação do festival. A imagem comprova a presença conjunta; não comprova intermediação comercial.
O cruzamento é objetivo: a Esportes da Sorte patrocinou um evento da produtora ligada a Carreras e apareceu depois como patrocinadora do FIG da Prefeitura de Sivaldo. A conexão documental exige saber quem contratou, quanto pagou, por qual caminho e com qual justificativa. A Prefeitura não publicou essas respostas.
E o 34º FIG?
A Prefeitura publicou 19 textos sobre o 34º Festival de Inverno, realizado em 2026. Nessa varredura, não apareceu menção à Esportes da Sorte, à PixBet, à Aposta Ganha, a outra bet ou a Felipe Carreras como patrocinador ou intermediário.
Por isso, a prova publicada nesta matéria é específica: a Esportes da Sorte aparece oficialmente no 33º FIG de 2025. Não há base para transportar esse patrocínio para a edição de 2026.
A mesma verificação foi feita para o Encantos do Natal 2025. A publicação oficial informa realização da Prefeitura, por meio da Secretaria de Cultura, e da Casa do Artesão. Não menciona Esportes da Sorte, PixBet, Aposta Ganha ou outra bet como patrocinadora.
A cobrança dentro da CPI
Em 8 de agosto de 2023, durante uma audiência da CPI com Wesley Callegari Cardia, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias, e André Gelfi, do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, a discussão chegou ao plenário.
A transcrição oficial da Câmara registra que Wellington Roberto citou as reportagens da Folha, O Antagonista e Crusoé sobre a sociedade de Carreras em uma empresa patrocinada por bets e pediu explicações. Luciano Vieira chamou a hipótese de conflito de interesse; Wellington disse que, se o relato fosse verdadeiro, poderia haver impedimento do relator.
Carreras já havia deixado a reunião. O presidente da CPI, Julio Arcoverde, disse que o deputado deveria explicar a situação na reunião seguinte. Não foi localizada decisão formal da comissão afastando Carreras da relatoria.
A pergunta ficou registrada. A resposta formal, não.
O jantar com o sócio da PixBet
Outra reportagem do Metrópoles informou que Carreras se encontrou em 29 de agosto de 2023, em Brasília, com Ernildo Júnior de Farias, apontado como sócio da PixBet. O jantar ocorreu na casa de outro deputado, fora da Câmara. Farias havia sido convocado pela CPI, mas ainda não tinha deposto.
Carreras disse que o encontro era casual, que não conhecia Farias antes e que não tratou de trabalho. A reportagem não apresentou ata, mensagem, registro de entrada ou testemunho independente sobre o assunto tratado.
O encontro não pode ser convertido em prova de negociação. Mas, depois das reportagens sobre os patrocínios e da denúncia dos R$ 35 milhões, também não pode ser tratado como um detalhe irrelevante sem que os envolvidos expliquem o que foi conversado.
A denúncia dos R$ 35 milhões
Em setembro de 2023, a revista Veja publicou que Wesley Cardia teria relatado ao assessor especial do Ministério da Fazenda José Francisco Manssur um pedido de R$ 35 milhões atribuído a Carreras. Segundo a reportagem, o dinheiro seria cobrado em troca de ajuda e proteção na regulamentação das apostas e na CPI.
A Veja informou que não havia evidência material apresentada contra o deputado. Carreras negou a acusação. A ANJL afirmou que o assunto nunca havia sido tratado no Ministério da Fazenda. Manssur não confirmou publicamente o relato nas fontes reunidas para este rascunho.
A acusação continua sendo uma acusação: foi publicada, atribuída e negada. Não existe, no material reunido, áudio, mensagem, pagamento, denúncia formal ou decisão que comprove o pedido.
Carreras não apenas discutia o mercado: ele relatou a sua regra
Carreras foi designado relator do PL 442/1991, que passou a tramitar como PL 2234/2022. A Câmara aprovou o texto-base por 246 votos a 202, com três abstenções, e a redação final foi apresentada pelo deputado.
O texto aprovado trata de cassinos, bingos, jogo do bicho e jogos e apostas online. Também cria regras de autorização federal, fiscalização, tributação, prevenção à lavagem de dinheiro e sanções.
O projeto foi enviado ao Senado em março de 2022. Hoje, segue pronto para deliberação do Plenário, com Irajá como relator. O pedido de urgência foi rejeitado em dezembro de 2025 por 28 votos a 36.
O argumento de Carreras era público: regulamentar o setor, arrecadar impostos e fortalecer áreas como esporte, turismo e cultura. O ponto editorial também é público: ele relatava regras para um mercado que patrocinava eventos de uma empresa da qual era sócio.
Isso não prova compra da relatoria. Prova uma sobreposição que a política brasileira costuma preferir deixar sem pergunta.
A conclusão
A documentação não permite chamar Felipe Carreras de corrupto, nem afirmar que ele recebeu propina ou que cometeu crime. Mas também não permite fingir que existe apenas uma coincidência abstrata.
Carreras aparece no quadro societário de duas empresas. Bets patrocinaram eventos da Festa Cheia. Balanços consultados por reportagem registram lucros milionários distribuídos. Uma dessas marcas patrocinou o 33º Festival de Inverno de Garanhuns, sob a gestão de Sivaldo Albino, aliado político de Carreras. Ele relatou a CPI das apostas, foi questionado sobre possível impedimento, encontrou-se com um sócio da PixBet e foi alvo de uma denúncia de R$ 35 milhões que continua negada e sem comprovação.
A pergunta não é se a reportagem pode condenar alguém. A pergunta é por que uma cadeia tão próxima de empresa, bet, política e regulação não produziu, até agora, uma explicação documental completa.
Como apuramos
Partimos da matéria do ge enviada pelo editor e conferimos a reportagem original da Veja, a reportagem original da Folha, as republicações do O Antagonista e do Metrópoles, a entrevista atribuída à Crusoé, a transcrição integral e a página oficial da reunião 69019 da Câmara, os requerimentos da CPI, a presença e o registro de ausência de votação, a consulta oficial da Jucepe, os dados cadastrais das duas empresas, a tramitação oficial do PL 2234/2022 no Senado e as publicações oficiais da Prefeitura de Garanhuns sobre o 33º e o 34º FIG e o Encantos do Natal 2025.
A Prefeitura de Garanhuns confirmou em publicação oficial o patrocínio da Esportes da Sorte no 33º FIG de 2025. Na varredura das publicações oficiais do 34º FIG de 2026 e do Encantos do Natal 2025, não apareceu menção a bet, Esportes da Sorte, PixBet ou Aposta Ganha como patrocinadora.
Os contratos privados dos patrocínios, seus valores e a resposta formal de Cardia e Manssur ainda não foram publicados nas fontes reunidas. Por isso, a matéria atribui cada acusação e não transforma ausência de documento em prova de crime.
Fontes principais
- Folha — patrocínios em eventos de empresa ligada a Carreras
- Veja — denúncia de suposto pedido de dinheiro
- Câmara — evento 69019 da CPI
- Câmara — parecer preliminar de Carreras
- Câmara — CPI encerrada sem votação do relatório
- Senado — PL 2234/2022
- Prefeitura de Garanhuns — balanço do 33º FIG
- Prefeitura de Garanhuns — abertura do Encantos do Natal 2025
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