Farinha do mesmo saco: o vereador Thiago Paes, que se diz voz do povo, gravou uma nota de repúdio para exigir o mesmo camarote da base que ele critica
Thiago Paes (PL), vereador e pré-candidato a deputado estadual, se apresenta como líder da oposição em Garanhuns. Mas o que o levou a gravar um vídeo de "nota de repúdio", com sirene vermelha e tudo, não foi a fila do posto nem o povo na chuva: foi ele ter ficado sem acesso ao camarote do Festival de Inverno. Segundo o próprio vereador, o camarote é da Câmara. E a pergunta que sobra é simples: o que autoridade pública faz, afinal, dentro de um camarote?
Começa com uma sirene vermelha piscando, no alto da tela, ao lado das palavras “NOTA DE REPÚDIO”. Embaixo, moldura verde-amarela e a assinatura “VEREADOR THIAGO PAES”. Tudo na produção grita emergência, hora grave da cidade. Aí você espera o assunto. E o assunto é um camarote.
Em vídeo publicado nas próprias redes sociais, o vereador Thiago Paes (PL) — pré-candidato a deputado estadual — que fala em nome da oposição, “repudia de forma veemente” a presidência da Câmara Municipal de Garanhuns por causa do Festival de Inverno. A queixa, nas palavras dele: disseram à oposição que não haveria camarote institucional nem credenciamento para os vereadores — só que o camarote existe, “está funcionando normalmente”, e “diversos vereadores e suas assessorias tiveram acesso ao espaço”. Todos, diz ele, menos dois: ele mesmo e o vereador Ruber Neto, que ele cita como o outro deixado de fora.
Como prova, mostra um print de WhatsApp. Alguém pede “as senhas diárias do FIG”; a resposta é seca: “Vereador não vai ter senhas esse ano. De camarote.” Por cima da imagem, as legendas que o próprio vereador escreveu: “Fim dos camarotes para vereadores da oposição” e “Só não acaba o puxadinho do prefeito”.

Repare no que, de fato, tirou o sono do vereador
Thiago Paes se vende como oposição, como a voz do povo contra a base do governo. Ótimo. Então olhe com atenção o que o fez pegar a câmera, montar a arte de alerta máximo e gravar uma denúncia solene. Não foi um hospital sem médico. Não foi a fila que não anda. Não foi o povo que pega chuva na rua durante o festival. Foi ele ter ficado sem o seu lugar no camarote.
E é aí que a nota de repúdio se vira contra o próprio autor. Porque Thiago Paes não repudiou a existência de um camarote institucional pago pelo poder público. Ele repudiou não estar dentro dele. A revolta não é contra o privilégio — é contra a exclusão do privilégio. E isso o coloca, sem que ele perceba, exatamente no mesmo saco que ele diz combater: os que ele chama de “base”, curtindo o camarote, e ele, indignado por não estar lá junto, querem no fundo a mesma coisa — a boa cadeira, protegida, lá em cima. Farinha do mesmo saco.
O que autoridade faz dentro de um camarote?
Essa é a pergunta que interessa a quem paga o imposto — e ela é maior que a briga deles. Num país sério, você não vê vereador, prefeito ou secretário em área VIP de festa, muito menos quando essa área sai do dinheiro público. E aqui vale separar o que se sabe do que é versão. O que se sabe: um camarote institucional — seja da Câmara, seja da Prefeitura — é bancado com dinheiro público, e o dono desse dinheiro é o povo. Isso não está em discussão. O que é versão do próprio vereador, e como versão dele fica registrado, é de quem seria o camarote e como teria sido adquirido: segundo Thiago Paes, o camarote é da Câmara. Quanto custou, quem comprou e com qual nota fiscal, isso a reportagem não afirma, porque não está provado. Mas não muda o essencial: existe um camarote institucional, pago pelo poder público, com porta aberta pra uns e fechada pra outros.
Enquanto o povo pega a chuva do inverno lá embaixo, a discussão que os mandatos escolheram travar não foi “por que a Câmara tem camarote?”. Foi “por que eu não estou nele?”.
Tem até um detalhe que o vídeo não esconde. Em certo momento, o vereador diz: “Não estou reivindicando privilégios.” Ele diz isso no exato vídeo em que cobra, publicamente, o seu lugar no camarote. Chamar de “direito” o que se pede para si e de “privilégio” o que o vizinho conseguiu é um truque velho — e não cola quando o que está em jogo é a mesma cadeira coberta.
O que O Contraditório afirma — e o que não afirma
A nossa régua é o fato. Uma coisa afirmamos com todas as letras: camarote institucional é pago com dinheiro público, e o dono desse dinheiro é o povo. O que não afirmamos, porque hoje não temos como provar, é a compra em si — quem comprou o camarote, por quanto e com qual nota fiscal. Isso é a versão que o próprio vereador levanta no vídeo dele, e assim fica registrada. E dizer isso não é inocentar ninguém: é o contrário. Justamente porque o dinheiro é do povo, quem preside a Câmara é que deve a explicação — dos critérios de quem entra e de quem fica de fora ao custo de tudo. A presidência pode ter outra versão, e o espaço para ela segue aberto.
O que afirmamos é só o que está assinado pelo próprio autor do vídeo: um vereador de Garanhuns achou que o assunto mais urgente para uma nota de repúdio, com estética de alerta máximo, foi ter ficado sem senha de camarote no Festival de Inverno. Não é acusação nossa contra ninguém. É o retrato que ele mesmo pintou — e nele o povo aparece num lugar só: embaixo do camarote, na chuva, olhando pra cima. A pergunta que fica, e que o eleitor tem todo o direito de fazer, é se a preocupação desse mandato anda mesmo com quem o elegeu — ou com a vista lá de cima.
COMO APURAMOS
O Contraditório assistiu integralmente ao vídeo publicado pelo próprio vereador Thiago Paes (2min24s) e transcreveu a fala palavra por palavra, com conferência, por um segundo modelo de reconhecimento de voz, do trecho em que ele nomeia os vereadores citados. Também foram lidas as legendas e as mensagens do print de WhatsApp que ele inseriu no vídeo. Nenhuma afirmação da reportagem vai além do que é público no material do próprio vereador: as versões sobre o camarote ser da Câmara, sobre o credenciamento e sobre quem teve ou não acesso são atribuídas a ele. A reportagem não apura, nesta matéria, o custo do camarote nem a forma de pagamento, e não afirma ilegalidade. O nome da atual presidência da Câmara não é citado pelo vereador e não é afirmado aqui. O espaço para manifestação da presidência da Câmara permanece aberto.





