Sábado, 1 de agosto de 2026
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Garanhuns

Farinha do mesmo saco: o vereador Thiago Paes, que se diz voz do povo, gravou uma nota de repúdio para exigir o mesmo camarote da base que ele critica

Thiago Paes (PL), vereador e pré-candidato a deputado estadual, se apresenta como líder da oposição em Garanhuns. Mas o que o levou a gravar um vídeo de "nota de repúdio", com sirene vermelha e tudo, não foi a fila do posto nem o povo na chuva: foi ele ter ficado sem acesso ao camarote do Festival de Inverno. Segundo o próprio vereador, o camarote é da Câmara. E a pergunta que sobra é simples: o que autoridade pública faz, afinal, dentro de um camarote?

Farinha do mesmo saco: o vereador Thiago Paes, que se diz voz do povo, gravou uma nota de repúdio para exigir o mesmo camarote da base que ele critica

Começa com uma sirene vermelha piscando, no alto da tela, ao lado das palavras “NOTA DE REPÚDIO”. Embaixo, moldura verde-amarela e a assinatura “VEREADOR THIAGO PAES”. Tudo na produção grita emergência, hora grave da cidade. Aí você espera o assunto. E o assunto é um camarote.

Em vídeo publicado nas próprias redes sociais, o vereador Thiago Paes (PL) — pré-candidato a deputado estadual — que fala em nome da oposição, “repudia de forma veemente” a presidência da Câmara Municipal de Garanhuns por causa do Festival de Inverno. A queixa, nas palavras dele: disseram à oposição que não haveria camarote institucional nem credenciamento para os vereadores — só que o camarote existe, “está funcionando normalmente”, e “diversos vereadores e suas assessorias tiveram acesso ao espaço”. Todos, diz ele, menos dois: ele mesmo e o vereador Ruber Neto, que ele cita como o outro deixado de fora.

Vídeo: a “nota de repúdio” publicada pelo próprio vereador Thiago Paes. Reprodução/Instagram @thiagopaespe

Como prova, mostra um print de WhatsApp. Alguém pede “as senhas diárias do FIG”; a resposta é seca: “Vereador não vai ter senhas esse ano. De camarote.” Por cima da imagem, as legendas que o próprio vereador escreveu: “Fim dos camarotes para vereadores da oposição” e “Só não acaba o puxadinho do prefeito”.

Print de conversa de WhatsApp exibido pelo vereador Thiago Paes sobre as senhas de camarote do FIG
Print de conversa de WhatsApp exibido pelo próprio vereador no vídeo, com as legendas que ele acrescentou. Reprodução/Instagram @thiagopaespe

Repare no que, de fato, tirou o sono do vereador

Thiago Paes se vende como oposição, como a voz do povo contra a base do governo. Ótimo. Então olhe com atenção o que o fez pegar a câmera, montar a arte de alerta máximo e gravar uma denúncia solene. Não foi um hospital sem médico. Não foi a fila que não anda. Não foi o povo que pega chuva na rua durante o festival. Foi ele ter ficado sem o seu lugar no camarote.

E é aí que a nota de repúdio se vira contra o próprio autor. Porque Thiago Paes não repudiou a existência de um camarote institucional pago pelo poder público. Ele repudiou não estar dentro dele. A revolta não é contra o privilégio — é contra a exclusão do privilégio. E isso o coloca, sem que ele perceba, exatamente no mesmo saco que ele diz combater: os que ele chama de “base”, curtindo o camarote, e ele, indignado por não estar lá junto, querem no fundo a mesma coisa — a boa cadeira, protegida, lá em cima. Farinha do mesmo saco.

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O que autoridade faz dentro de um camarote?

Essa é a pergunta que interessa a quem paga o imposto — e ela é maior que a briga deles. Num país sério, você não vê vereador, prefeito ou secretário em área VIP de festa, muito menos quando essa área sai do dinheiro público. E aqui vale separar o que se sabe do que é versão. O que se sabe: um camarote institucional — seja da Câmara, seja da Prefeitura — é bancado com dinheiro público, e o dono desse dinheiro é o povo. Isso não está em discussão. O que é versão do próprio vereador, e como versão dele fica registrado, é de quem seria o camarote e como teria sido adquirido: segundo Thiago Paes, o camarote é da Câmara. Quanto custou, quem comprou e com qual nota fiscal, isso a reportagem não afirma, porque não está provado. Mas não muda o essencial: existe um camarote institucional, pago pelo poder público, com porta aberta pra uns e fechada pra outros.

Enquanto o povo pega a chuva do inverno lá embaixo, a discussão que os mandatos escolheram travar não foi “por que a Câmara tem camarote?”. Foi “por que eu não estou nele?”.

Tem até um detalhe que o vídeo não esconde. Em certo momento, o vereador diz: “Não estou reivindicando privilégios.” Ele diz isso no exato vídeo em que cobra, publicamente, o seu lugar no camarote. Chamar de “direito” o que se pede para si e de “privilégio” o que o vizinho conseguiu é um truque velho — e não cola quando o que está em jogo é a mesma cadeira coberta.

O que O Contraditório afirma — e o que não afirma

A nossa régua é o fato. Uma coisa afirmamos com todas as letras: camarote institucional é pago com dinheiro público, e o dono desse dinheiro é o povo. O que não afirmamos, porque hoje não temos como provar, é a compra em si — quem comprou o camarote, por quanto e com qual nota fiscal. Isso é a versão que o próprio vereador levanta no vídeo dele, e assim fica registrada. E dizer isso não é inocentar ninguém: é o contrário. Justamente porque o dinheiro é do povo, quem preside a Câmara é que deve a explicação — dos critérios de quem entra e de quem fica de fora ao custo de tudo. A presidência pode ter outra versão, e o espaço para ela segue aberto.

O que afirmamos é só o que está assinado pelo próprio autor do vídeo: um vereador de Garanhuns achou que o assunto mais urgente para uma nota de repúdio, com estética de alerta máximo, foi ter ficado sem senha de camarote no Festival de Inverno. Não é acusação nossa contra ninguém. É o retrato que ele mesmo pintou — e nele o povo aparece num lugar só: embaixo do camarote, na chuva, olhando pra cima. A pergunta que fica, e que o eleitor tem todo o direito de fazer, é se a preocupação desse mandato anda mesmo com quem o elegeu — ou com a vista lá de cima.

COMO APURAMOS

O Contraditório assistiu integralmente ao vídeo publicado pelo próprio vereador Thiago Paes (2min24s) e transcreveu a fala palavra por palavra, com conferência, por um segundo modelo de reconhecimento de voz, do trecho em que ele nomeia os vereadores citados. Também foram lidas as legendas e as mensagens do print de WhatsApp que ele inseriu no vídeo. Nenhuma afirmação da reportagem vai além do que é público no material do próprio vereador: as versões sobre o camarote ser da Câmara, sobre o credenciamento e sobre quem teve ou não acesso são atribuídas a ele. A reportagem não apura, nesta matéria, o custo do camarote nem a forma de pagamento, e não afirma ilegalidade. O nome da atual presidência da Câmara não é citado pelo vereador e não é afirmado aqui. O espaço para manifestação da presidência da Câmara permanece aberto.

Fontes principais
– Vídeo “Nota de Repúdio” publicado pelo vereador Thiago Paes (arquivo preservado na redação).
– Print de conversa de WhatsApp exibido no próprio vídeo.


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