Já sob decisão da Justiça por autopromoção, prefeito de Garanhuns transforma sala de imprensa do Festival de Inverno em palanque da pré-campanha de 2026
Nos bastidores do FIG — evento gratuito custeado com "recursos próprios" da Prefeitura —, o pré-candidato ao Governo de Pernambuco, João Campos, concedeu entrevista sobre seu "projeto de campanha". Ao lado dele estavam Carlos Costa, o vice de sua chapa; o prefeito de Garanhuns, Sivaldo Albino; Cayo Albino, filho do prefeito e deputado estadual; o deputado federal Felipe Carreras; e o senador Humberto Costa. O prefeito já é alvo de decisão judicial e de auditoria do TCE por promoção pessoal em eventos públicos.
Uma investigação do O Contraditório, a partir de vídeos e fotos gravados no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), revela o uso da estrutura restrita do evento público — os bastidores e a sala de imprensa montada para que os jornalistas entrevistem os artistas — para atos político-eleitorais voltados ao pleito de 2026.
Na noite de sábado (18), segundo registro do veículo local VEC Garanhuns, o ex-prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos — que renunciou ao comando da capital em 2 de abril de 2026, dois dias antes do prazo legal de desincompatibilização, para disputar o Governo de Pernambuco — esteve no FIG acompanhado do deputado federal Felipe Carreras (PSB), visitou polos culturais e, à noite, concedeu entrevista à imprensa nos bastidores do festival, ao lado do prefeito de Garanhuns, Sivaldo Albino (PSB).
Naquela sala, porém, não estavam apenas os dois. As imagens mostram reunidos ali o pré-candidato a vice-governador da chapa de João, Carlos Costa (Republicanos); o filho do prefeito e deputado estadual Cayo Albino (PSB), pré-candidato à reeleição; o próprio Felipe Carreras, também pré-candidato à reeleição; e o senador Humberto Costa (PT-PE), pré-candidato à reeleição ao Senado. Em uma única sala de um evento municipal, a chapa majoritária completa — governador e vice — ao lado de pré-candidatos a deputado e a senador.
“Projeto de campanha” na sala de imprensa do festival
A própria condução da entrevista tratou o momento como ato eleitoral. João Campos foi apresentado como “o candidato a governador” e recebeu o pedido para falar “um pouco sobre o seu projeto de campanha para Garanhuns e região”.
Em resposta, ele — que não é artista nem integrou a grade de atrações — discursou como quem projeta um futuro governo, condicionando o apoio ao festival ao resultado da eleição:
> “Imagina se ele [o festival] tiver o apoio do Governo do Estado, como deveria. Então, a partir do próximo ano, a gente vai fazer isso: poder apoiar de verdade, apoiar com infraestrutura, com recurso, com apoio. E aqui eu queria parabenizar o Prefeito Sivaldo, porque a decisão que ele tomou foi a mais certa.”
Na mesma entrevista, afirmou: “firmei um compromisso aqui com o Sivaldo” — referindo-se à criação dos “Jogos Escolares da Cultura” — e projetou trazer o presidente Lula ao festival no ano seguinte. Não há, em nenhum momento, pedido explícito de voto. O que há é conteúdo de pré-campanha, apresentado dentro de um equipamento público.
Quem de fato pertence àquele espaço

As fotos dos bastidores ajudam a medir a distorção. Ali também aparece o ator Eduardo Moscovis, conversando com João Campos — e Moscovis é, precisamente, o tipo de pessoa para quem aquele espaço existe: um artista. A sala de imprensa do FIG é estrutura pública, custeada pela Prefeitura e montada com uma finalidade clara: permitir que jornalistas entrevistem as atrações do festival. Nenhum dos pré-candidatos reunidos ali — governador, vice, deputados e senador — constava dessa grade.
A família no poder, nos mesmos bastidores
A área interna do festival também serviu para exaltação da família Albino. Em vídeo, Rodrigo Albino — filho do prefeito e irmão do deputado Cayo — discursa ao lado do cantor Hungria:
> “…meu pai é o maior prefeito da história de Garanhuns, eleito com a maior votação da história, meu irmão é deputado estadual, hoje eu tenho dois CNPJs e hoje eu estou ao lado do cara que eu considero como um ídolo.”
Rodrigo, porém, não é apenas filho do prefeito. Segundo o portal da transparência da Câmara dos Deputados, Rodrigo Oliveira Albino ocupa o cargo de Secretário Parlamentar no gabinete de Felipe Carreras — o mesmo deputado que aparece nas imagens dos bastidores. O filho do prefeito que organiza o festival com dinheiro municipal é, portanto, servidor comissionado pago com dinheiro da Câmara, lotado no gabinete do aliado que circula pelos camarins do evento.
A vitrine: os próprios políticos publicam os bastidores
O uso da área restrita como palco de imagem não depende de suposição — está publicado pelos próprios envolvidos, em contas oficiais e verificadas.
O registro mais eloquente é do senador Humberto Costa. Em publicação no seu perfil, marcada em Garanhuns e com mais de 700 curtidas, ele exibe encontros nos bastidores e escreve:
> “Toda vez que venho ao FIG, saio cheio de boas recordações e bons encontros. Desta vez, pude receber o calor do povo de Garanhuns e até bater um papo com @dinhoouropreto, do @capitalinicial. Tudo isso ao lado desse time de craques: @joaocampos, @carloscosta.pe, @sivaldoalbino40, @cayoalbino, @felipecarreras.”

O “time de craques” descrito pelo próprio senador é, literalmente, a chapa: o pré-candidato ao Governo, o pré-candidato a vice, o prefeito que organiza o festival, seu filho deputado e o deputado federal. As imagens do post mostram o senador dentro do camarim do Capital Inicial — banda contratada pela Prefeitura — e, em outras, ao lado de integrantes da equipe técnica do festival, identificados por crachá.
O deputado Felipe Carreras repete a rotina. Em seus stories, aparece dentro do camarim da cantora Claudia Leitte, ao lado de Cayo Albino; em outro, dentro de um camarim com o prefeito Sivaldo e os cantores Rafa e Pipo Marques; e ainda com a banda Cheiro de Amor, sob a legenda “Tmj! Meu time axézeiro”. Nas marcações, sempre os mesmos perfis: @sivaldoalbino40, @cayoalbino e, em um deles, a secretária municipal de Cultura, @sandraalbino_13, titular da pasta que organiza o evento.

Fecha-se assim um circuito: a Prefeitura contrata as atrações com dinheiro público, os pré-candidatos acessam a área reservada a essas atrações e à produção, e convertem o encontro em conteúdo de promoção pessoal nas próprias redes.
O incômodo já havia sido registrado pela imprensa local. Em publicação intitulada “34º Festival de Inverno: Cultura ou Palanque Político?”, o @blog_antenada.news — em parceria com o Portal Giro Diário — apontou o mesmo movimento:
> “O prefeito Sivaldo Albino tem recebido na sala de imprensa diversas lideranças políticas, entre elas seu filho, que atualmente exerce o mandato de deputado estadual e deverá disputar a reeleição, além de um senador, um deputado federal e um pré-candidato ao Governo de Pernambuco. A frequência dessas aparições transmite à população a impressão de que o festival está sendo utilizado como vitrine para fortalecer projetos políticos.”
E encerra com a pergunta que resume o caso: “onde termina a divulgação institucional e onde começa o uso político de um patrimônio cultural?”
O agravante: o prefeito já está sob ordem judicial e auditoria por autopromoção
Transformar a estrutura do festival em holofote político não é episódio isolado. É um padrão que já rendeu condenação eleitoral e que hoje tramita em três instâncias distintas.
Antes de tudo, há um precedente que o próprio prefeito conhece bem: em 21 de janeiro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE), por decisão do desembargador Fernando Cerqueira Norberto dos Santos, manteve a condenação de Sivaldo Albino e do diretório municipal do PSB de Garanhuns por propaganda eleitoral antecipada, com multa de R$ 10 mil. O caso tratava de convocação pública de eleitores pelas redes, uso de jingles de campanha e realização de showmício com artistas durante convenção partidária, em agosto de 2024. A representação foi apresentada pela Federação PSDB/Cidadania.
Ou seja: o prefeito que agora sedia uma coletiva de pré-campanha dentro da sala de imprensa do festival municipal já foi condenado, em definitivo, por antecipar campanha usando artistas e estrutura de evento.
A esse histórico somam-se três apurações em curso:
Na Justiça. Tramita na Vara da Fazenda Pública da Comarca de Garanhuns a Ação Popular nº 0003725-80.2023.8.17.2640, movida pelo cidadão Carlos Alberto Venancio dos Santos contra o Município de Garanhuns e Sivaldo Rodrigues Albino. A ação aponta autopromoção do prefeito no Festival Viva Garanhuns de 22 de abril de 2023, quando ele teria usado o palco do evento para promover a própria imagem e anunciar atrações futuras, “misturando sua figura pessoal com a gestão pública” — em afronta ao art. 37, §1º, da Constituição Federal. A petição juntou vídeos, transcrições das falas e capturas do perfil oficial do prefeito no Instagram.
Em 13 de abril de 2026, o juízo determinou que Sivaldo Albino se abstenha de promoção pessoal em eventos custeados pela Prefeitura, sob multa de R$ 1.000 por descumprimento, revertida ao próprio Município. Menos de um mês depois, em 2 de maio de 2026, o prefeito subiu ao palco do Viva Garanhuns para anunciar atrações. Em sua defesa, alegou já estar reeleito e não ser candidato.
📄 Leia a decisão da Justiça na íntegra
O O Contraditório disponibiliza a decisão do processo nº 0003725-80.2023.8.17.2640, da Vara da Fazenda Pública de Garanhuns, para quem quiser conferir cada palavra.
No Tribunal de Contas. O TCE-PE instaurou a Auditoria Especial de Conformidade nº 25101191-4, para apurar “os seguidos casos de descumprimento do Princípio da Impessoalidade […] em shows e eventos, por parte de agentes públicos do Município de Garanhuns”, com foco no 33º Festival de Inverno (FIG 2025).
O julgamento ocorreu em 4 de junho de 2026, na Segunda Câmara, sob relatoria do conselheiro Valdecir Pascoal. O Acórdão T.C. nº 1136/2026 reconhece a “exposição excessiva da imagem do gestor” e a “necessidade de preservação do caráter republicano e institucional das festividades custeadas com recursos públicos” — mas conclui pela “ausência, no caso concreto, de finalidade eleitoral ostensiva ou desvio manifesto de recursos públicos”, aplicando os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. O Tribunal editou a Resolução TC nº 319/2026, com determinações ao gestor.
Em outras palavras: o prefeito não foi punido, mas foi formalmente advertido — e orientado a manter os eventos pagos pelo contribuinte no terreno institucional. Isso foi em 4 de junho. Seis semanas depois, em 18 de julho, a sala de imprensa do festival recebia uma chapa inteira de pré-candidatos.
📄 Leia o acórdão do Tribunal de Contas
Acórdão T.C. nº 1136/2026 (processo TCE-PE nº 25101191-4) e o inteiro teor da deliberação, com 19 páginas.
No Ministério Público. O MPPE abriu notícia de fato sob a 2ª Promotoria de Justiça de Defesa do Cidadão de Garanhuns, também motivada pelas manifestações do prefeito durante o festival.
O que diz a legislação eleitoral
O FIG é, pelo terceiro ano seguido, organizado e custeado pela Prefeitura de Garanhuns, por meio da Secretaria Municipal de Cultura: o edital oficial classifica a fonte do recurso como “recursos próprios” e a programação é gratuita. Sobre o uso dessa estrutura para pré-campanha, a legislação prevê:
1. Conduta vedada (Lei nº 9.504/1997, art. 73, I): é proibido ao agente público “ceder ou usar, em benefício de candidato, partido político ou coligação, bens móveis ou imóveis pertencentes à administração”. As penas vão de multa à possível cassação de registro ou diploma. 2. Propaganda eleitoral antecipada (art. 36-A): o pré-candidato pode divulgar projetos e pedir apoio político, mas não pedir voto — e o TSE entende que o pedido de voto pode ser inferido do contexto, e não apenas de palavras diretas. 3. Abuso de poder político (LC nº 64/90, art. 22): explorar a estrutura de um evento público custeado pelo contribuinte para dar visibilidade a pré-candidatos pode configurar abuso, sujeito à sanção de inelegibilidade.
Avaliar se algo disso ocorreu cabe ao Ministério Público Eleitoral e ao TRE-PE.
O outro lado
O O Contraditório procurou a Prefeitura de Garanhuns e os gabinetes de João Campos, Sivaldo Albino, Cayo Albino, Felipe Carreras e Humberto Costa para que se manifestem sobre o uso da estrutura pública do festival para uma entrevista de natureza político-eleitoral. O espaço permanece aberto e a matéria será atualizada assim que as respostas chegarem.
O QUE FICA
Uma sala montada com dinheiro público para que jornalistas entrevistassem os artistas do festival foi ocupada, numa noite de festa, por uma chapa inteira de pré-candidatos. E a pergunta que se ouviu ali não foi sobre cultura. Foi sobre “projeto de campanha”.
Havia jornalistas na sala. Havia câmeras, microfones e transmissão ao vivo. Diante de um pré-candidato ao Governo, de seu vice, de um senador e de dois deputados ocupando o espaço reservado aos artistas de um evento pago pelo contribuinte, nenhuma pergunta foi feita sobre a legalidade daquilo. A pauta da noite foi aceita pronta, como veio: pediram que o pré-candidato falasse do seu “projeto de campanha”.
Fica a pergunta incômoda, mas que precisa ser feita — e este portal a faz sabendo que também é imprensa e que também estará sujeito a ela: quando quem foi cobrir cultura aceita, sem estranhar, servir de plateia a um comitê de pré-campanha montado dentro de um equipamento público, quem sobra para fiscalizar?
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Como apuramos
Esta reportagem partiu da análise de seis vídeos e de fotografias feitas nos bastidores do 34º Festival de Inverno de Garanhuns, cujas falas foram transcritas integralmente e conferidas duas vezes, sem corte de trechos. Todos os nomes citados foram identificados e cada cargo foi checado em fonte oficial.





